Relacionamento e minha conversão – Parte 04

Minha Conversão

Minha conversão não foi repentina, ao contrário, demandou tempo, foi uma conquista gradativa.

Começou em um dia que me ficou na memória.

Cheguei um pouco mais cedo em casa e a encontro cheia de mulheres que nunca tinha visto na vida.
Todas ajoelhadas, na grande sala do primeiro andar, diante da imagem da N.S da Rosa Mística, que Teresa levava no colo nas casas de quem quer que lhe pedisse.

A fé que percebi naquelas mulheres era tão grande que chegava a ser palpável.

Fiquei sensibilizado e comecei a falar silenciosamente comigo mesmo, dirigindo-me para a imagem.

“Se você é tão poderosa que coloca toda essa gente de joelhos diante de você e faz com que minha mulher a carregue no colo para as casas das pessoas, quero apenas uma coisa – quero crer como minha mulher crê.”

Sem ter consciência, tinha dado uma ordem espiritual a minha mente que passou a obedece-la. Só fui conscientizar-me do que tinha feito depois de vários anos trabalhando na Comunidade Emanuel lendo os livros de Dom Cipriano. Tinha acionado, sem saber uma das leis espirituais que regem o mundo espiritual e, por via de consequência, o mundo em que vivemos.

Naquele momento não ocorreu nada, mas a ordem espiritual começou a produzir efeitos, ainda que invisíveis.

Depois disso, em outro dia, fui apanhar Teresa no grupo de oração da Comunidade Emanuel, localizada no centro da cidade, próximo ao local onde eu trabalhava.

Como a reunião terminava tarde preferi espera-la e não tive outro remédio senão assistir o final do grupo, sentando-me na última fila de cadeiras.

Foi quando o coordenador, antes do término, pediu para que colocássemos a mão no ombro do companheiro da esquerda e fizesse uma oração por ele.

De oração eu só conhecia a Ave Maria e comecei a balbuciar essa prece ao colocar minha mão no companheiro da esquerda.
Foi então que me dei conta do companheiro da direita – um negro baixo, com a cabeça toda branca, com uma roupa diferente para a época, idos de 1996 – camisa quadriculada, suspensórios vermelhos com desenhos de grandes flores, e calça jeans, com certeza norte-americana, pois ainda não a produzíamos no brasil.
Ele colocou a mão em meu ombro e começou a orar em línguas, coisa que eu jamais havia ouvido.

Nesse momento senti meu ombro começar a vergar sob o peso daquela mão, não tanto pelo peso, mas pela sensação estranha que comecei a sentir.

O que não havia sentido naquele dia em minha casa, diante da imagem de N. S. Da rosa mística, senti naquele momento.

A partir daí, comecei a ir apanhar Teresa semanalmente, nos dias da reunião do grupo de oração, e assistia o grupo integralmente. Interessei-me e procurei conhecer melhor o que se fazia na comunidade.

Teresa e eu procurávamos intermediar nossa participação no grupo de oração da comunidade com o relacionamento com nosso círculo de amizades.

Fatalmente, quem começa uma caminhada religiosa começa a fazer uma seleção entre as pessoas com as quais se relaciona.

Alguns nos aceitam nessa nova fase, outros, no entanto, passam a nos ridicularizar.
Não conseguem nos ver nessa nova posição e, se fraquejarmos, desistiremos dos primeiros passos para uma vida nova, de liberdade, uma vida onde somos nós que escolhemos quais os caminhos devemos trilhar, não mais os outros.

Não procuramos fazer da religião um escape para nossa eventual incapacidade de relacionamento.
Escolhemos pessoas que comungavam dos mesmos interesses e nos afastamos gradativamente dos que acreditam em outras coisas.

Com o tempo, verificamos que existem pessoas que usam a religião como forma de ultrapassar ou compensar as dificuldades de relacionamento, devido ao próprio relacionamento tumultuado consigo mesmo.

Acreditam ser mais importantes do que os outros por estar participando de reunião em um grupo especial, que tem relacionamento direto com Deus, e passam a tratar quem não participa dessas experiências, como se fossem inferiores.
Isso é uma fuga.

Ao não desejar admitir o sofrimento pela incapacidade de relacionamento, utilizam um artificio: imaginam ser um com Deus.

Essa fantasia coloca-os acima dos outros pois desprezam os que tem necessidade de se relacionar com o cônjuge e com amigos, imaginado que já ultrapassaram espiritualmente essa carência afetiva.

O erro de tal sofisma se baseia no fato de tentar humanizar Deus, confundindo-o com a pessoa humana.

Pela tradição teológica, o ser humano torna-se um com Deus a partir da unidade da natureza divina e humana, em Jesus.

Nós, porém, não nos dissolvemos em Deus, nem nos misturamos a ele.
Permanecemos sempre pessoas que se unem a Deus. Por isso, a mística cristã sempre comparou a união do ser humano com Deus à união entre o homem e a mulher, que tornam-se completamente um, permanecendo sempre pessoas individualizadas. Ultrapassam a si mesmo no êxtase do amor.

O ser humano, portanto, é uma pessoa que é interpelada e vocacionada por Deus, um interlocutor de Deus que anseia por tornar-se um com esse Deus que o interpela.
A ação de procura cabe a deus e não ao homem.

Cada ser humano anseia por amar e ser amado.
Nesse caminho cada um faz experiências de plenitude e de decepção, de encantamento e de ferimento.

Nos preocupamos em ser bem avaliados por terceiros, em receber elogios por nossos esforços, por nosso desempenho.

O apóstolo S. Lucas ilustra bem isso com a história de Marta e Maria.
Enquanto Marta se esmera em receber bem o hóspede, em arrumar bem a casa, Maria simplesmente fica aos pés do Senhor ouvindo o que ele tinha a dizer.

Quantas vezes somos como Marta, nos preocupando em fazer tudo corretamente, organizar tudo a tempo e a hora, e não nos deixamos ser a Maria que existe dentro de cada um de nós.
Deixar tudo de lado apenas para aproveitar o momento presente.

Muitos podem achar que isso é pura perda de tempo, mas não foi essa a interpretação de Jesus:
“Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas, no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só.
Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.” (Lc 10,41-42)

Posted in Grupo de Oração.

One Comment

  1. Gostei imensamente deste artigo! Chamou-me a atenção, em particular, essa parte em que você fala do comando espiritual que deu à mente. Gostaria de saber mais como funcionam essas ordens espirituais e como podemos aplicá-las. Poderia escrever mais sobre o tema?
    Um grande abraço!

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