O cristão diante da crise – Parte 05

Quem não experimentou uma crise de fé? Quando, apesar de continuarmos a comparecer as missas, já não sentimos mais aquele entusiasmo, aquele sabor na comunhão? Sentimos que vamos nos afastando cada vez mais de Deus e, subitamente, ele não passa mais a fazer parte de nossa vida? Experimenta-se um verdadeiro deserto espiritual. Não acreditamos em mais nada, duvidamos do amor de Deus por nós, perdemos a fé.

Muitas vezes isso acontece por fazermos uma imagem imperfeita de Deus. Acreditamos que trabalhamos e lutamos por Deus quando na verdade estamos querendo mostrar ao mundo nosso próprio valor, nosso próprio sucesso.

Temos que aprender a ouvir Deus. E Deus não se faz ouvir através de tremores de terra, incêndios ou tempestades, ao contrário, ele se faz ouvir através de um sussurro. Ele não está no fogo que destrói nossos inimigos, nem em nosso perfeccionismo, esse delírio de querermos ser perfeitos.

É preciso reencontrar Deus. Nesse reencontro solitário, no silêncio de nosso quarto, quebram-se as velhas imagens que construímos de Deus – o Deus que castiga, o Deus que condena, o Deus arbitrário – pois esse é o Deus da morte. Mas nosso Deus é o Deus da vida, nos quer criativos, nos quer recriados para vivenciarmos finalmente aquilo para o qual nos criou.

Steve Jobs, um dos criadores da empresa de computação Macintosh, cuja inventividade marcou uma época no processo de computação mundial, em discurso no final de um curso na Universidade da Califórnia afirmou:

Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo – expectativas externas; orgulho; medo de passar vergonha ou falhar – caem diante da morte, deixando apenas o que é importante.

Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que conheço para evitar cair na armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração.

A morte é provavelmente a principal invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Limpa o velho para abrir caminho para o novo. Nesse momento o novo é você, mas algum dia, não muito distante, você gradualmente se tornará um velho, e será varrido.

Seu tempo é limitado, portanto não o gaste vivendo a vida de outro alguém;
Não fique preso a dogmas, que é viver com os resultados da vida de outras pessoas. Não deixe que o barulho da opinião dos outros cale sua própria voz interior.

E o mais importante: tenha coragem de seguir seu próprio coração e sua intuição. Todo o resto é secundário.

Quando li pela primeira vez essas palavras elas tocaram meu coração e compreendi, finalmente, porque São Bento recomendava a seus monges refletirem diariamente sobre a morte. Somente assim eles dariam mais valor ao resto de vida que tinham, valorizando cada minuto do momento presente.

Se a morte é certa, valorizemos mais a vida que nos resta e lembremo-nos do que disse santo agostinho:

“A vida não é mortal, a morte é que é vital”.

A vida, na realidade, é uma escola onde aprendemos a partir, e se assemelha a uma corrida de longa distância. Na medida em que a corrida se desenvolve a alegria inicial cede lugar aos verdadeiros desafios: o cansaço, a monotonia, as dúvidas sobre a própria capacidade em terminar a prova, a solidão, as surpresas do caminho, os obstáculos naturais. Chega o momento em que se faz a pergunta? Será que vale a pena tanto esforço?

“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, dizia o poeta português Fernando Pessoa.

Dediquemo-nos a fazer, preferencialmente, o que nos agrada, o que nos é prazeroso. Mas se formos obrigados a fazer algo que nos desagrada vamos procurar faze-lo com prazer, sem reclamações. Porque, ao nos comprometer a nos colocar por inteiro em tudo o que fazemos vamos verificar que não existem tarefas desagradáveis.

Fernando Pessoa disse certa feita:

“Para ser grande sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes
E se em cada lago a lua toda
Brilha é porque alta vive.”

Sou feliz quando vivo o momento presente plena e inteiramente, com todos os meus sentidos alertas, em harmonia comigo mesmo.

O exemplo que me surge é o de uma criança brincando com seus carrinhos no meio de vários adultos. Ela fica absorta em suas brincadeiras, sua atenção está totalmente voltada para o que está fazendo, nada interfere com ela, não importa o que os adultos à seu redor estão fazendo.

Quando fazemos Deus o centro de nossa vida a nossa percepção de quem somos dependerá menos do que os outros pensam ou falam de nós. Criamos coragem para permitir que aconteçam coisas novas, coisas sobre as quais não temos controle, mas que agora se nos mostram menos ameaçadoras.

Tomas Merton, padre beneditino, dizia:

“A verdadeira esperança não reside em alguma coisa que pensamos poder fazer, mas em Deus, que está fazendo alguma coisa boa de um modo que não conseguimos enxergar.”

Aqueles que creem no amanhã viverão melhor o hoje. Aqueles que aguardam a volta do Senhor podem antecipadamente descobri-lo em seu meio.

O salto na fé sempre significa amar sem esperar ser amado, dar sem desejar receber, convidar sem esperar ser convidado, abraçar sem esperar ser abraçado.

Meu irmão e minha irmã, não vacilemos. Façamos nossa opção por Deus. Não deixemos o tempo passar. Somos responsáveis pelo que fazemos, pois cada ato tem suas consequências. Façamos a opção mais inteligente, aquela que nos capacita a ver Deus face a face.

No último texto dessa série abordarei a busca pela felicidade, essa busca incessante e infrutífera, pois ela só é encontrada quando nos entregamos nas mãos de Deus.

* Não deixe de postar seus comentários.

A Paz de Jesus
Mauro Malta

Posted in Grupo de Oração.

10 Comments

  1. Gostei muito realmente temos que viver o hoje amanha pertence a Deus Sou serva do meu Senhor procuro ser fiel a cada dia servir com amor zelo e dedicacao mesmo com preguica e cansada vou a missa pois sei que preciso da eucaristia para ser cada dia melhor Obrigada Beijos

  2. Realmente é indispensável ter coragem para seguir o próprio coração e intuição; sem medo do que se pode perder. Tudo isto com certeza será menos difícil, ouvindo a voz de Deus para nós.

  3. Procuro viver com intensidade e amor tudo o q faço, principalmente as coisas q me desagradam..sempre pergunto a Jesus: Jesus o que farias em meu lugar.. e o resultado vem, pois me sinto amada por Deus e assim procuro colocar amor em tudo o q faço..

  4. Mauro, mais uma vez obrigada por palavras tão edificantes, que sempre chegam no “momento certo”.
    Que Deus o abençoe em seu propósito de Evangelização. Paz!

  5. Refletir sobre a morte……………..realmente me ajuda a entender melhor o sentido da vida……..que minhas ações diárias possam ser canal da graça do Senhor para os irmãos………..

  6. O calor do dia dia, torna resistente fazer o que realmente desejamos e ao passar do tempo, o trabalho tem suas exigências sou levado a fazer o que os outros querem ver, acabo me anulando, e dificil mas continuarei a tentar fazer o que realmente me faz se sentir melhor, acreditando sempre estar na presença de Deus.

  7. Belas palavras para refletir.
    Vale a pena decidi-se por Deus. O essencial é invisível aos olhos e sensivel ao coração. O essencial é Jesus Cristo, pois Ele poe todas as outras coisas no seu lugar. Diante da morte, nós valorização realmente o que é Essencial. Não deixe para amanhã a sua decisão em seguir Jesus.

  8. Prezado Sr. Mauro,
    De fato, evangelizar por meio da troca de experiências é um método bastante eficaz.
    Os leitores/irmãos em Cristo veem que não estão sozinhos em suas batalhas (terrenas e espirituais).
    Também já passei por muiiiiiitas provas de fogo, por alguns desertos, fechei meu coração em alguns momentos e, quando achei que ia perder minha fé, conversei seriamente com Jesus. Disse-lhe que me mostrasse o que fazer para resgatar minha vontade de viver, porque estava querendo “jogar a toalha”, desistir de tudo e esperar minha morte.
    Então, participei de um retiro de cura interior com o Sr. Martins na Comunidade Emanuel. Neste retiro, ele disse que um verdadeiro filho de Deus não pode se conformar com doenças, tristezas, aparentes derrotas… Ao contrário, ele tem que lutar por sua cura/libertação/salvação!
    Após aquele final de semana, voltei para casa e refleti bastante. Durante toda a semana seguinte, fiquei em silêncio (não sentia vontade de interagir muito com as pessoas em redor) e ouvi todos os dias, novamente, todo o retiro que tinha gravado.
    Então, comecei a me deixar conduzir por uma voz interior que me indicava os passos a seguir.
    O primeiro passo em busca da minha cura/libertação/salvação foi fazer uma renúncia com o diácono Antonio Honorato.
    Após, comecei a orar muito, sobretudo, o terço mariano. E revi ações do passado, situações por que passei, decepções, desentendimentos, etc., que me magoaram muito, e comecei a confessá-los diante de um sacerdote.
    Igualmente, busquei a comunhão com mais amor e certeza de que era (e é) o caminho da minha cura/libertação/salvação.
    Desde então, minha vida não é mais a mesma. Realmente, passei a buscar primeiro “as coisas do alto” e vi que todo o resto me tem sido dado pela graça de Deus.
    E mais: percebi que, sendo filha de Deus, eu tenho o MELHOR E MAIS ADORÁVEL IRMÃO: JESUS.
    Não me sinto mais só. E quando algo não acontece como eu esperava digo: “Senhor, eu vos louvo, vos bendigo e vos agradeço por tudo o que sois e fazeis por mim, por minha família e por tudo o que diz respeito a nós”.
    Por agora, este é o meu testemunho.
    Prossiga com os ensinamentos, Sr. Mauro.
    É este o caminho.
    PAZ e BEM

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