O cristão diante da crise – Parte 03

Em geral, a crise ocorre em distintas condições de nossa vida.

Muitos a experimentam quando se aposentam, principalmente quando a pessoa se define a partir da poderosa empresa onde trabalha, do cargo que ocupa, das mordomias que o cercam.

Quando se aposenta perde o crachá que o identificava como funcionário da poderosa empresa, todas as firulas do poder desaparecem. Já não têm mais o lugar conhecido onde assinava o ponto todos os dias, os momentos do cafezinho, quando ouvia as “fofocas” do dia, o carro com o chofer solícito, o avião para levá-los para importantes reuniões com autoridades governamentais, nem a secretária que antecipa seus menores desejos e satisfaz suas vontades.

Agora o tempo custa a passar. A pessoa fica mais tempo em casa e começa a se irritar pelas menores coisas. Não consegue estabelecer um ritmo de proximidade e distanciamento com sua esposa, que passa a ser culpada de tudo o que a pessoa considera como errado. Casamentos de anos de repente submergem nessas ondas de frustração.

Quando perdi o emprego onde trabalhava há mais de vinte anos também atravessei uma crise de identidade. Tranquei-me em um quarto escuro e me recusava a sair. Quem me deu a mão salvadora foi minha companheira. Com muito carinho e amor Maria Teresa, minha esposa, me fez ver minhas responsabilidades como chefe de família. Pouco a pouco fui saindo de meu vazio tentando refazer meu caminho. Foi difícil, custou muito, mas no final consegui me recuperar.

Ainda não havia conhecido o poder curador de Deus, não sabia que podia contar com seu auxílio, culpava-me pela perda do emprego, embora não tivesse qualquer participação em minha defenestração. O cargo era político e com a mudança de governo veio a substituição. Minha capacidade intelectual, minha eficiência profissional, minha dedicação à empresa, não foram levadas em consideração. E o mais importante, culpava-me por uma ação que fugia inteiramente a minha alçada mas queria arranjar uma explicação lógica pelo desemprego e culpar-me parecia uma boa fuga.

Mas era em casa que desabafava. Como não tinha mais nada a fazer, tentava arrumar alguma coisa mudando de lugar o que havia sido estabelecido pela Maria Teresa, que rapidamente vinha e a recolocava as coisas no lugar anterior. Começamos a discutir por bobagens, coisas insignificantes, o lugar de uma cadeira, por exemplo. Refleti durante algum tempo sobre nosso casamento e percebi que era eu quem não conseguia me harmonizar com a nova vida de aposentado. Será que valia a pena destruir um relacionamento que já dura 50 anos por questões insignificantes? Decidi então adotar um comportamento inteligente. Agora estou amando. A mando da Teresa, o que ela manda fazer eu faço!

Caso a pessoa fique remoendo o acontecido, culpando-se pelo sucedido, se penaliza duplamente: pela dispensa do emprego e pela culpa que se atribui. Se alguma lição tirei desse meu momento de crise foi para não me levar tão a sério. Rir de minha situação foi o primeiro passo para soluciona-la.
E a solução é enfrentar a crise de frente. Esforçar-se para arranjar um outro emprego. É duro, trabalhoso, humilhante, mas vale a pena.

Depois disso saí e entrei em vários outros empregos cada vez com maior facilidade. Não me identificava mais com o cargo que ocupava. Não dependia mais do cargo para me individualizar. Sabia quem eu era, conhecia todas minhas limitações e falhas, aceitava minha fraqueza exatamente como era. Não queria ser outro.

Meu irmão e minha irmã, aproveitemos a crise para nos conhecer mais profundamente. Encaremos nossas deficiências e nossos pontos fortes, procuremos enfatizar tudo o que fazemos bem, aquilo para o qual temos mais aptidão e procuremos nos aperfeiçoar. Aprendamos a amar o que fazemos. Não tem sentido trabalhar 8 horas por dia em um local e odiar o que fazemos. Só quando amamos o que fazemos o faremos cada vez melhor.

Meu irmão e minha irmã, no próximo texto sobre a crise abordarei a crise da doença além da crise do sucesso, que também pode nos afetar.

* Não deixe de postar seus comentários.

A Paz de Jesus

Mauro Malta

Posted in Grupo de Oração.

14 Comments

  1. Boa tarde
    Gosto muito dos temas que você coloca com muita certeza é verdadeiramente o que acontece , nos cristãos. Quando li, parecia que esse texto estava sendo dirigido pra mim. Militar desde 24 anos e aos 54 anos aposentada pela idade máxima na minha graduação. Mas estou enfrentando essa crise, já tive uma pequena depressão, mas missão agora é cuidar da minha mãe. Já com uma certa idade precisa de auxílio. .Eu como.cristã vicentina da Igreja do Apostolo de São Pedro, me vejo nessa nova missão. Agora dia de São Bento o qual devota e carrego sua medalha, vou dia 11 de julho mais um ano no mosteiro o qual vou todo ano. Gostaria tanto de ter eu e minha mae tambem catolica devota assidua ao coracao de Jesus , nos vicentinas um momento.com Dom Cipriano. Seria pedir muito.e muito.difícil? Seria um presente.

    • Cara Regina

      Antes de mais nada muito obrigado pela sua resposta. Essa visão nova sobre a crise é a que todo cristão deve demonstrar e você captou perfeitamente o que se deseja repassar. Quanto a seu contato com Dom Cipriano, esclareço que ele já conta com 93 nos de idade, com todas as consequências do passar do tempo: dificuldade na locomoção, vagar nos gestos, lapsos de memória, enfim, os efeitos do tempo nessa nossa carapaça humana que se vai desgastando pouco a pouco. Não posso afirmar que seja atendida, mas na próxima segunda feira, na Missa que realizamos na Comunidade ao meio dia, ao lado do Mosteiro de S. Bento, ele estará presente, ocasião propícia para uma conversa ligeira.
      A Paz de Jesus
      Mauro Malta

  2. Boa tarde!
    Muito pertinentes e verdadeiras suas três colocações. Temos imensa dificuldade em lidar com perdas, fracassos, vazios. Isto nos põe em confronto com nossa incompletude e impotencia. E muita das vezes vivemos sem a inteireza de nosso ser, sem conhecimento de nossas capacidades e limites. E ao nos depararmos com estas situações, o grande deus que pensavamos ser se vê paralizado. Nunca deixamos Deus ser Deus em nossas vidas. Ocupamos o lugar Dele com o nosso achismo e ‘saber’, colocando o deus interior e as coisas no centro e não Ele.
    E ao nos depararmos com situações de desemprego, aposentadoria, morte, enfermidade, sindrome do ninho vazio (quando os filhos criam asas e voam), etc, nosso sofrimento é grande.
    Felizes aqueles que constroem suas vidas lidando com as perdas e abandonando-se à vontade do Pai, aceitando ser conduzidos pelo Espírito Santo.
    Nada é nosso e estamos apenas de passagem. Lição difícil de se internalizar.
    Continuemos firmes nesta linda aventura que é viver e principalmente, viver agraciados pelo Amor do Pai. Que Ele nos fortaleça e sustente!

    • Cara Eliane

      Gostei muito de seus comentários. Realmente é difícil seguir os passos de Jesus. Mas Ele nunca disse que era, ao contrário. Toda sua vida foi uma contínua luta contra as tradições, regras, preconceitos e intenções sobre o que Deus desejava. Somente com muita paciência e desejo de entrega conseguimos ouvir Deus em nosso silenciar. Façamos de nossa vida uma eterna busca de santidade, aquela que se adquire com os pequenos atos de amor.
      A Paz de Jesus
      Mauro Malta

  3. Oportuno esse seu texto nº 3, nos dá força para continuar.Sempre encarei a aposentadoria como uma etapa vencida na vida da gente.Longo é o caminho q se nos descortina atualmente, face a qualidade de vida q conquistamos.Reinventar o tempo livre é fundamental a fim de mantermos a saúde do corpo e da mente: MENS SANA IN CORPORE SANO.
    Abs, aguardando o novo texto,
    Ângela

    • Obrigado pelo comentário Ângela
      ficamos tão presos a nosso trabalho, tão habituados a sair de casa, ir para o trabalho e voltar para casa à noite, que deixamos de lado a preparação para nossa aposentadoria. Criar hobies, fortalecer os laços de amizade, partir para um trabalho voluntário, são formas de ultrapassar essa sensação de vazio que se apossa de nós ao ficarmos livres para o ócio, que não pode ser simplesmente parar tudo para tentar usufruir nosso tempo livre. Livre para se tornar um estorvo, um peso. Você tem razão ao abordar esse aspecto. Temos que nos preparar e nada melhor do que aprofundarmos nossa intimidade com Deus.
      A Paz de Jesus
      Mauro Malta

  4. Caro Mauro, li e reli com bastante atenção seus textos, os quais são valiosos para minhas reflexões. Na nossa vida devemos procurar estar bem, com Deus, e com todos; ter uma harmonia interior, calma, para que possamos dirimir nossas vidas e podermos olhar o outro e vermos quantas coisas importantes poderemos ainda realizar. Antes de estar aposentada já iniciei uma caminhada religiosa cujo início se deu na Comunidade Emanuel. Nunca me esqueço dos maravilhosos e mais belos momentos de convívio com vocês. Adquiri material de leitura, participei de missas, palestras, aconselhamentos e dois retiros espirituais. Nunca perdi a fé e soube esperar uma graça de Deus a qual recebi: eu queria uma direção para minha vida, algo que me fizesse feliz, realizada. Recebi um incentivo de um amigo e enfrentei o desafio de conquistar a vaga. Tudo correu bem, sem empecilhos, mas confiante. Hoje sou graduanda em Teologia (7º período) e o tempo que os estudos exigem parece tão pequeno. Há renúncias? Muitas. Mas em compensação sou melhor do que antes e continuo devota de São Bento. Grande abraço a todos da Comunidade. Paz e Bem.

    • Bravos Geysa!
      Esta é a posição ideal para ultrapassar essa fase de vazio existencial, quando a pessoa sente ter perdido a identidade só porque não faz mais parte da grande “família” empresarial a que pertencia. Você escolheu a melhor parte, como a passagem de Marta e Maria.
      A Paz de Jesus
      Mauro Malta

  5. Um texto muito relevante. Com relato de uma vida real é sempre importante a nós. Pois passamos sempre por crises. E ter acesso ao testemunho nos ajuda a dar nossos passos com maturidade. E minha pouca experiencia com a Comunidade Emanuel tem sido muito importante. Conheci a Comunidade quando o Dom Cipriano iria fazer 90 anos, mas me surpreendeu o testemunho de vida deste Monge. Tenho profundo respeito, carinho, alegria por Dom Cipriano e a Comunidade. Tive oportunidade de experienciar 4 retiros de cura profunda, e falo se tiver outros 20 ou 30 retiros continuarei indo. Foi divisor de águas na minha vida, quando fui no primeiro passava por um momento difícil de vida, pessoal,profissional, familiar. Mas foi daí que senti o verdadeiro amor, o amor de Deus por mim. E todo seu cuidado para nos restaurar, cuidar. Foi um grande passo que dei na vida, tenho muito a melhorar, superar, mas vejo muitas respostas vindo desta obra (ensinamentos do Dom Cipriano, Comunidade Emanuel). Parabéns por terem abraçado a missao, pois tem ajudado a pessoas como eu, que quase nada conhecia de Deus e sua obra(mesmo frequentando a Igreja a vida toda, mas faltava a experiência com Jesus e Espírito Santo). Tenho a agradece-los.

  6. Bom dia, lendo o texto……….lembrei que ja passei por um fato semelhante ao descrito acima……….e me recuperei e ainda estou me recuperando………………E a família foi a estrutura que me manteve unido a Deus …

    • Cara Mônica
      Experimentar tropeços e ultrapassa-los nos faz mais fortes. Se a vida fosse um terreno fácil, aplainado, sem obstáculos, acredito que seria insípida. São os obstáculos e nossa tenacidade que tornam nossa vitória mais saborosa.
      A Paz de Jesus
      Mauro Malta

  7. Maravilhoso este texto. Serviu muito para mim, pois está perto da minha aposentadoria. Obrigada por nos ensinar. Agradeço a Deus pela sua sabedoria. Deus o abençoe.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *