Como ver Deus em Nossa Vida – Parte 04

Até aqui, o livro de Yancey nos deixou vários exemplos de como Deus se faz presente aqui e agora, nas coisas mais simples às mais complexas, no ser humano e na natureza.
Vimos como a fé é determinante para que possamos criar essa intimidade com Deus e é conveniente aprofundar um pouco mais essa questão, bem como a tendência em se culpar Deus pelos desastres e infortúnios que nos acontecem.

Não foram apenas exemplos humanos que provocaram a conversão de Yancey ao catolicismo. O exame histórico da religião cristã mostrou que o cristianismo realizou profunda e permanente modificação no comportamento mundial, podendo-se citar, em outros, o seguinte;

-Opos-se à filosofia grega, na explicação mais lógica para a salvação do ser humano, propondo uma resposta nova e inédita para a questão de nosso relacionamento com a morte e com o tempo; -Permitiu o exercício da razão ao lado da fé;
-Divulgou conceitos revolucionários para a época, tais como:
-o ser humano não depende de seus dons e talentos, mas do uso que faz deles, derrubando assim,
a primazia dos mais aquinhoados com heranças e bens;
-estabeleceu a igualdade entre os seres humanos, independente do estado social, do gênero, da
cor, credo, ou riqueza, em plena sociedade escravocrata, com rígida hierarquia social, onde o
papel da mulher era marginalizado;
-introduziu a doutrina da salvação baseada no amor e não na agressividade.
-Provou que sua doutrina é verdadeira e passa pelo teste da perenidade, pois já existe há mais de dois séculos e continua a crescer.

A cultura européia deve muito a religião cristã. Não se pode esquecer que foram os mosteiros cristãos, principalmente os criados por São Bento, instalados em toda Europa, que resguardaram a memória da antiga cultura helênica e de vários livros básicos para o desenvolvimento da cultura, através da arte dos copistas, que caprichosamente multiplicavam os originais mais importantes da cultura mundial, armazenando-os nas respectivas bibliotecas.
Esses mosteiros, repositórios da cultura, foram a base para a formação das grandes universidades européias, disseminando a cultura ocidental e os conceitos cristãos nela introduzidos.

Yancey resgatou a memória do poeta JOHN DONNE. Esse poeta elisabetano, que viveu entre 1573-1631.
Inicialmente católico, converteu-se à Igreja anglicana para não morrer de fome, pois não conseguia emprego devido a religião escolhida. Como desejava servir a Deus, converteu-se e, depois de receber o grau de doutor em “Divindade” na Universidade de Cambridge, foi nomeado Deão da Catedral de São Paulo, a maior igreja de Londres.
Escreveu vários livros, entre os quais “Upon Emergent Occasions” e “Meditations”, seu livro mais famoso, onde descreve o que sentiu ao ficar doente durante as três ondas da peste negra que devastaram Londres, matando um terço de seus habitantes e afugentando o restante para o interior. Londres, uma cidade trepidante, esvaziou-se, crescia capim entre as pedras das ruas, bairros inteiros transformaram-se em locais fantasmas.

Donne, no entanto, não abandonou seus poucos paroquianos mas caiu doente. Estava certo ter contraído a peste negra e fazia-se a pergunta que todos os que sofrem fazem: “Por que eu?”

Embora não acreditasse que a peste fosse um castigo de Deus para corrigir os pecadores, tinha medo, mas procurava dissipa-lo colocando suas dúvidas diante de Jesus em busca de respostas. Por isso dizia:
“Certamente elas não são a tua mão. A espada devoradora, o fogo consumidor, os ventos do ermo, as doenças do corpo, tudo aquilo que afligiu Jó veio das mãos de Satanás, não das tuas.”

Ele não encontra qualquer alívio para seu temor. Obcecado, revisa todas as passagens bíblicas em que aparece a palavra “medo”. Ao fazer isto, aflora nele a ideia de que a vida sempre terá situações que incitarão o medo:

-Se não for a doença, serão dificuldades financeiras, se não for a pobreza, será a rejeição; se não for a solidão, será o fracasso.
-Num mundo assim Donne tem uma opção: temer a Deus ou temer tudo mais.

Em sua contenda com Deus Donne mudou as perguntas. Começando a fazer perguntas sobre a causa, para a qual não encontrou resposta, move-se em direção à reação.

Confiarei em Deus no meio da minha crise e diante do medo que ela provoca?

Ou me afastarei de Deus com amargura e raiva?

Não importava se a doença fosse um castigo ou simplesmente uma ocorrência natural. Em ambos os casos ele confiaria em Deus, pois no final das contas, confiança representa o adequado temor a Deus.

Como Deus se sente em relação àqueles que morrem, mesmo quando isso ocorre como resultado de suas próprias transgressões?

Será que Deus se preocupa mesmo com a perda, a raiva e o medo que sentimos?

Não precisamos ficar imaginando como Deus se sente, pois em Jesus ele nos mostra.

Qual o propósito da progéria, uma anormalidade que acelera o processo de envelhecimento e faz com que uma criança de seis anos de idade se pareça com uma pessoa de 80, indagava-se Yancey?

Da paralisia cerebral? Da fibrose cística? De um terremoto na Índia ou um maremoto que mata 100 mil pessoas em

Bangladesh?

Por acaso Deus retém as chuvas na África como sinal de seu desgosto?

A maioria de nós só consegue enxergar um significado negativo para o sofrimento, como uma interrupção da saúde, uma indesejável interrupção em nossa luta pela vida, pela liberdade e pela felicidade.

Foi no livro de Donne que Yancey conseguiu sua resposta.

Pela janela Donne ouvia os sinos da igreja badalando uma lúgubre declaração de morte. Por um instante ficava pensando se seus amigos, cientes de sua condição ser mais grave do que aquilo que diziam, haviam ordenado que os sinos tocassem por sua morte. Logo percebeu que os sinos estavam marcando não a sua morte, mas a de uma outra vítima da peste.

Em suas MEDITAÇÕES XVII, sobre o significado dos sinos da Igreja – trecho mais famoso e uma das mais celebradas passagens da literatura inglesa, Donne afirma:

“Nenhum homem é uma ilha. Se um punhado de terra é levado pelo mar, a Europa fica menor….A morte de qualquer homem rebaixa-me, pois estou envolvido com a raça humana, portanto, NUNCA PROCURES SABER POR QUEM OS SINOS DOBRAM, ELES DOBRAM POR TI.”

Donne concluiu que um desastre é uma oportunidade para nos ensinar:
-HUMILDADE, de um lado e GRATIDÃO por outro, pela vida da qual ainda desfruto.
-COMPAIXÃO, aquela que Jesus demonstrava a todo aquele que sofria e pranteava.
-ARREPENDIMENTO relembrando, abruptamente, de nossa mortalidade.

O badalar do sino operou mudança no pensamento de Donne. Até então estivera pensando sobre o propósito da doença e atuais lições que deveria aprender com elas. Agora começava a contemplar o significado da saúde. O sino trazia à tona a questão sobre como ele havia passado sua vida inteira.

-As provações haviam expurgado o pecado e desenvolvido o caráter;
-A pobreza lhe ensinou sobre a dependência de Deus e o purificou da ganância
-O fracasso e a desgraça pública ajudaram-no a curar o orgulho e a ambição
-À crise do medo seguiu-se a crise de propósito, que convergiram para a crise da morte.

Yancey ressaltou que a vida de Jesus foi marcada pela rejeição.
Seus vizinhos o expulsaram da cidade,
sua família questionou sua sanidade,
seus amigos mais próximos o traíram e
seus compatriotas trocaram sua vida pela de um criminoso comum.

Durante todo seu ministério Jesus propositalmente andou entre os pobres e os rejeitados. Tocou os leprosos, comeu com os impuros, perdoou ladrões, adúlteros e prostitutas.

Jesus não evitou a “desgraça”, afirma Yancey.

Quanto mais ímpia, imoral e indesejável era a pessoa, mais ela se sentia atraída por Jesus. Quanto mais justa, segura de si e desejável, mais ela se sentia ameaçada por Jesus. É praticamente o oposto do que a maioria das pessoas faz.

Considere as pessoas que eram vistas com Jesus: uma prostituta, um homem com lepra, um proscrito moral, um centurião romano, uma mulher mestiça com cinco divórcios no currículo, um cego de nascença, invalidez atribuída a algum pecado, da pessoa ou de seus pais.

Enquanto isso, os fariseus – homens corretos que estudavam as Escrituras e obedeciam rigorosamente a Lei – a elite governante, os pilares da sociedade, todos eles viam Jesus como uma ameaça.

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados” (Mt.11:28). A graça, assim como a água, corre para as partes mais baixas.

Depois de tudo o que se discorreu nesses trechos do livro de Yancey, acredito ter espicaçado sua curiosidade para as coisas de Deus. Nada melhor do que começar a ler a Bíblia inteirando-se mais profundamente da Palavra.

Aconselho, ainda, a ler o livro O PODER DE DEUS EM SUAS MÃOS de Dom Cipriano, onde vai aprender que Deus nos concedeu os mesmos poderes que delegou a Jesus, e até mesmo maiores, para que os utilizemos para abreviar a segunda vinda de Jesus à terra, para abreviar nossa salvação.

Posted in Grupo de Oração.

One Comment

  1. Prezado Mauro, muito obrigada pelos seus posts, estou gostando muito.
    Não conheço os escritores, poetas e as pessoas que você cita, mas está sendo muito gratificante aprender com eles e perceber o quanto precisamos do nosso DEUS, o quanto somos pequenos e falhos, e que todos nós temos as mesmas dúvidas.
    É muito bom nos aprofundarmos nos ensinamentos do nosso Bom DEUS! Eu tenho quase todos os livros do Dom Cipriano e já li todos com exceção de um preto acho que é Moradas do Espirito, e aprendi muito com todos eles. Sou assinante da revista Jesus Vive também.

    Um forte abraço,
    Claudia

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