Como ver Deus em Nossa Vida – Parte 03

Abordamos nos artigos anteriores a maravilhosa engenharia de nosso corpo físico, a beleza do mundo que nos cerca e, agora, precisamos tocar em um ponto muito importante – a fé

Apesar de se ter encarnado como ser humano, Jesus nunca teve um comportamento semelhante ao nosso. Pautou seu comportamento por ações diametralmente contrárias às práticas sociais da época.

Preferia os descartados da sociedade, aqueles que ficavam à margem sem participação efetiva no fluxo vital da sociedade, os cegos, coxos, leprosos, pobres, viúvas e idosos, como cita YANCEY em seu livro.

Em suas pesquisar descobriu o trabalho do DR. ROBERT COLES, outro dos médicos escolhidos por ele para elucidar suas dúvidas, que exerceu a profissão de psiquiatria na Africa, na América Latina e até mesmo nos Estados Unidos, cuidando sempre dos mais necessitados e conhecendo de perto a verdadeira pobreza.

Lidando com a parcela mais pobre da sociedade Dr. Cole percebeu que “a fé religiosa normalmente aguçava, ao invés de anular, a indignação e a afronta”, contrastando com o que havia aprendido na Universidade, onde ensinava-se que a religião era o “ópio do povo” tornando-o inerte e incapaz de reações contra ações injustas.

Os paradoxos na natureza humana pareciam desafiar as mais elaboradas formas behavioristas que Cole aprendera.

Entre os pobres, onde esperava encontrar derrota e desespero, encontrou um pouco, sim, mas também encontrou força, esperança, e coragem.

Entre os ricos onde esperava satisfação, em vez disto, encontrou fastio, alienação e decadência.”

Teve a visão clara da tentação da fartura. “A riqueza amaldiçoa com uma das mãos aquilo que abençoa com a outra.”

“Ser privilegiado leva a um abafamento da compaixão, a uma restrição da comunhão e ao crescimento da ambição” dizia ele.

Percebeu algo que Jesus já havia detectado ao afirmar que era “mais fácil um camelo entrar por uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus.”

Cole percebeu que os pobres eram abençoados com qualidades como coragem, amor e uma grande disposição para depender de Deus.

Cole havia aprendido que o mais importante não vinha de fora – as circunstâncias da vida – mas do interior, de dentro do coração da pessoa.

Não parece algo que já lemos na Bíblia? “Nada que, de fora, entra na pessoa pode torná-la impura. O que sai da pessoa é que a torna impura.”(Mc 7,15).

Em suas andanças pelo mundo, na busca contínua de respostas para suas dúvidas existenciais, YANCEY comparou as formas de governo e o desenvolvimento dos países e por onde andou e, para sua surpresa, verificou que os governos que tinham como base as raízes cristãs desenvolveram-se mais do que os países não cristãos.

Vemos essa conclusão cristalizada nos dias atuais em governos ditatoriais na África, nos países Árabes, em alguns sul-americanos, que usam a população sem porém compartilhar o acúmulo de riqueza, que se destina ao pequeno grupo que ascendeu ao poder.

Convém lembrar, também, que foi a religião católica a responsável pelo desabrochar das artes religiosas. Em um mundo dividido entre o catolicismo e o protestantismo verifica-se que as obras de arte que chegaram até nós, e que continuam a nos maravilhar, dedicam-se a enaltecer, principalmente, aspectos e histórias da religião católica. O protestantismo, preocupado em não deixar que o belo ofuscasse o olhar e o pensamento de seus seguidores, não estimulou obras de arte com fundo religioso.
Na Russia do século XIX, YANCEY pesquisou as obras de LEON TOLSTOI (1828-1910), famoso escritor russo, que escreveu: “O teste da observância dos ensinos de Cristo é a consciência de nossos fracasso em atingir a perfeição ideal. O quanto nos aproximamos dessa perfeição não é mensurável; tudo o que podemos ver é o tamanho de nosso desejo.”

“Um homem que professa uma lei exterior é como alguém que está diante da luz de uma lanterna pendurada num poste. Há luz em toda a sua volta, mas ele não pode ir a lugar algum. Um homem que professa os ensinos de Cristo é como alguém que carrega uma lanterna diante de si em um poste longo, ou mesmo não tão longo; a luz está adiante dele sempre iluminando os lugares novos e sempre encorajando-o a ir mais além.”

A Russia, da época de Tolstoi, era uma civilização que pretendia igualar-se ao resto da Europa, fazendo da França seu paradigma.

A pequena elite, representando mais de 60% da renda do país, falava francês entre si usando o idioma russo para comunicação com a plebe.

Tolstoi pertencia a essa elite russa, possuía grandes propriedades rurais, muitos empregados e, seduzido pela mensagem de Cristo, passou a preocupar-se mais com seus servos, motivo pelo qual, em seus livros, deu vazão a esses sentimentos de incapacidade em atingir a perfeição.

Foi também na Russia que Yancey descobriu outro escritor, igualmente famoso, FIODOR DOSTOIEVSKI (1821-1881), que foi condenado a prisão na Sibéria por dez anos, e que tinha idéias bem diferentes das de Tolstoi sobre a raça humana devido, com certeza, aos horrores pelos quais passou durante seu cativeiro.

Através de um de seus personagens, Ivan Karamazov, escreveu: “Em todo homem, naturalmente, há um demônio escondido.”

Através de experiências bem diversas das de Tostoi, chegou a mesma conclusão sobre a dificuldade em viver de acordo com os mandamentos de Jesus: “ninguém consegue viver à altura do ideal. Não há quem seja capaz de amar seu próximo como a si mesmo. Ninguém pode cumprir a lei de Cristo. Deus não poderia pedir tanto e se satisfazer com tão pouco.

Por isso, acreditava que somos feitos para algo que é muito maior que nós. É exatamente por isto, conclui ele, que devemos acreditar numa vida futura.

Sem esta crença nossa luta vã para satisfazer a lei de Cristo não teria razão de ser.
É nosso próprio desejo, nosso fracasso, nosso senso de imperfeição que faz que nos entreguemos à misericórdia de Deus. Nossa imperfeição nesta vida clama por uma realização mais completa deste ideal.”

Cristo, porém, não veio viver entre nós com objetivo de fazer de Deus nosso igual. Em sua resposta ao jovem rico; na parábola do bom samaritano; em seus comentários sobre o divórcio, sobre o dinheiro ou sobre qualquer outra questão moral, Jesus nunca rebaixou os ideais de Deus.

“Sêde vós perfeitos como perfeito é vosso Pai celeste” (Mat.5.48). “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.” (Mr 22:37)

Nem Tolstoi, nem Francisco de Assis, nem Madre Teresa de Calcutá, nem ninguém cumpriu totalmente estes mandamentos, nos informa Yancey. Mas o mesmo Jesus que nos apresenta esse modelo de comportamento, considerado impossível de ser seguido à risca, oferece , com ternura, a graça absoluta, talvez a mais notável característica distintiva da fé cristã.

Deus nos ama não por aquilo que somos ou que fizemos, mas por aquilo que Deus é. A graça flui para todos aqueles que a aceitam.

Jesus perdoou uma adúltera, um ladrão na cruz, um discípulo que o negou mesmo conhecendo-o.
A graça é absoluta e abrange todas as coisas. Ela se estende inclusive para as pessoas que pregaram Jesus na cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Lucas 23:34)

O Sermão da Montanha nos força a reconhecer a grande distância entre Deus e nós, e qualquer tentativa de reduzir essa distância através da diminuição de suas exigências é em vão.

Yancey não se resignou a buscar em figuras ocidentais exemplos que pudessem explicar o comportamento de Jesus, adotado hoje, em nossa sociedade tentadora.
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Foi buscar exemplo na Índia, com MAHATMA GANDHI (1869- 1948), o grande líder da independência de seu país do domínio inglês.

Para isso rompeu todas as regras do manual de política e, no meio do processo, ajudou a fundar a maior democracia da história do mundo, modelando sua vida e seu comportamento político a partir do exemplo de Jesus – responder a agressividade com amor.

Quando os policiais tentavam barrar os manifestantes batendo com cassetetes, os rebeldes colocavam-se em fila para receber os golpes. Os indianos logo encheram as cadeias até superar sua capacidade, o que era exatamente seu intento.

Quando os britânicos tentaram métodos mais brutais de opressão, como abrir fogo contra os manifestantes, criaram mártires e involuntariamente uniram a nação contra eles.

No famoso incidente de Amritsar, tropas sob a liderança britânica apontaram rifles na direção de um ajuntamento pacifico, mas ilegal, de homens, mulheres e crianças desarmados, disparando 1650 tiros em dez minutos provocando 1516 mortes, cita Yancey. A cruzada pela independência reuniu mais adeptos e a India separou-se do Império mais poderoso do mundo na época.

A violência brutaliza e divide, jamais reconcilia. Não se pode mudar a convicção de uma pessoa por meio da violência.

Apesar da doutrina de Jesus ser elogiada e seguida em parte por Gandhi ele não se aliou ao cristianismo afirmando:

“Há uma disparidade entre Cristo e os cristãos. Apedrejar profetas e mais tarde levantar igrejas em sua memória tem sido a prática do mundo durante eras. Hoje adoramos Cristo, mas o Cristo encarnado nós o crucificamos.”

Ghandi não conseguiu “ver” Deus, pois enxergava apenas os cristãos que o rodeavam. Não conseguiu abrir seus olhos para o invisível que estava bem ali, à sua disposição, bastando que se abrisse a Ele e não aos que se diziam cristãos.

Todos nós temos a capacidade de treinar nossos olhos para ver, e nosso ouvido para ouvir. Se deseja saber mais sobre isso não deixe de ler o livro SOB A LUZ DE DEUS, de Dom Cipriano, e perceba como Deus se faz presente em sua vida nas pequenas coisas, basta abrir olhos do seu coração para ver o que não se enxerga com os olhos.

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