A Vida no Gueto

Somos como aquele sapo que está tranquilo dentro de uma panela com a água esquentando e não pula fora, até que é tarde demais. Experimentamos diariamente a vida como em um gueto, e não nos damos conta. Ficamos chocados quando vemos nos filmes, os guetos judeus e nos perguntamos, pelo menos eu me pergunto sempre, como eles permitiram serem colocados nessa situação? Como não reagiram antes que fosse tarde demais? Como as outras pessoas se calaram diante da barbaridade?

Não é preciso voltar no tempo ou olhar para o outro lado do mundo. Basta olhar para fora de casa. Hoje vivemos em guetos no Brasil. Pelo menos, nas grandes cidades. Condomínios, grades, segurança, milícia, carros blindados, toque de recolher – sim, se deixamos de andar por certas ruas em determinados horários é um toque de recolher. Tudo bem, que informal e voluntário, mas mesmo assim, um toque de recolher.

Andamos na rua e não enxergamos o outro. Olhamos, mas não vemos. Não nos misturamos. No Rio temos claramente a fronteira entre o asfalto e o morro.  Cada um no seu quadrado. Mesmo a praia, universal e livre, tem seus limites e tribos.

Estamos presos e não nos damos conta. Achamos tudo normal. Cada vez pagamos mais para ficarmos atrás das grades. Cerceados, voluntariamente, e nossa liberdade. Para que? Por segurança? Se conversar com qualquer especialista ele vai dizer que não é bom levantar altos muros que impedem a visão de fora. Que quanto mais isolado, mais frágil a segurança. Alarmes, cães de guarda, cercas e afins tem um limite. Bom é o olho do vizinho que percebe um movimento estranho e aciona uma ajuda coletiva.

Em resumo: bom mesmo é relacionamento. Cuidar do outro. Altruísmo.

Por que é tão difícil? Pode-se seguir a linha da queda dos valores morais, do crescente individualismo da sociedade contemporânea e consequente egoísmo. Tudo muito genérico. Mas… e nós? O que estamos fazendo? Concordamos ou estamos sendo levados até que seja tarde demais? Outro dia fui a uma palestra sobre o Terceiro Setor em que o palestrante debatia esse tema. Ele, um executivo de sucesso do mercado financeiro vindo de uma família de classe média do interior de SP, adotou uma forma de encerrar o ano doando 1% do resultado de seu trabalho para custear melhorias em moradias. 1% independente do patrimônio. Se o ano tinha sido bom, ótimo – mais projetos. Se não tão bom, tudo bem. Nunca olhou para o valor e pensou: “Ah! Muito dinheiro. Esse ano vou reduzir um pouco.” A relação é sempre constante: a mesma percentagem em relação ao que obteve durante um ano inteiro de trabalho. Mas tinha o cuidado de não doar aleatoriamente a qualquer um. Era sempre focado em melhoria de moradias ou construção de novas moradias. E acompanhava de perto o gerenciamento do investimento e o resultado.

Ok. Você vai me dizer que para um milionário é muito fácil doar. Não faz falta. E eu pergunto: 1% do resultado de seu trabalho? 1% da sua renda faz falta para você? E você doa esse valor anualmente?

Mais do que a simples doação de 1% do patrimônio ou do dízimo, 10% da sua renda líquida, é o comprometimento com essa doação. É entender que essa doação é um investimento. Investimento social. É tratar a doação como você trata um investimento financeiro – saber qual o seu perfil, pesquisar antes qual o melhor retorno sobre o investimento, quais as condições, acompanhar a evolução, ou seja – cuidar do que é importante para você. É assim que você trata as suas doações?

“Ah! Mas doação não é investimento. Eu dou por caridade, para fazer o bem, sem saber a quem”. Será? Será que o bem passageiro fez, de fato, diferença na vida de quem deveria ajudar, ou só tapou os buracos que vão reabrir pouco tempo depois? Ou, o que é pior, trata-se simplesmente de uma tentativa de expiação para a culpa de se manter no conforto do lar, distante do que se passa a seu redor?

O bem, como tudo na vida, é uma construção que demanda tempo, cuidado, entrega, amor… e resultado. Resultado para saber se continua na mesma linha, ou faz uma mudança de rota. Não podemos esperar mudar uma situação complexa, que demanda muitos esforços como moradia, educação e saúde de uma hora para outra. Com uma doação aqui e ali. É preciso investimento. Gerenciamento de qualidade; controle; resultado.

Estudo o Terceiro Setor desde o tempo da faculdade, e desde então ele evoluiu muito no Brasil. A maneira de trabalhar nas ONGs está cada vez mais profissional, com boas práticas gerenciais e transparência. Mas e o outro lado? O dos doadores? Infelizmente não evolui no mesmo ritmo. Ainda entende a doação como caridade, sem vínculos e sem cobrança de resultado. Uma pena…

Esse gap está muito ligado ao individualismo e à cultura nacional de que o governo tem obrigação de olhar e cuidar de todos. Não preciso me mexer se não mexerem comigo. Se a violência é grande nas ruas, tranco-me em casa. Se a educação pública deixa a desejar, mudo meus filhos para a escola particular. Se não posso contar com hospital público, pago plano de saúde e médicos particulares. O foco é o meu bem estar. Esqueço que para sair nas ruas, dependo da educação de todos para respeitarem as regras e leis. Que uma cidade só é limpa, se todos os cidadãos cuidarem dela como se fosse sua própria casa. Que as pessoas só conseguem trabalhar, estudar – fazer suas respectivas funções na sociedade – se estiverem saudáveis, se não precisarem ficar horas e horas em filas para pegar senhas para outras filas para, aí sim, pegar a requisição de um exame que demanda outra fila.

Tudo bem que às vezes esquecemos do mundo lá fora quando estamos tão habituados a sair nas ruas direto para dentro de um carro com ar condicionado para chegar em outro lugar também com ar condicionado e geralmente com pessoas iguais – social e economicamente falando. Vivemos em bolhas. Em guetos ambulantes. Posso propor uma ideia? Saia da sua zona de conforto e olhe o desconhecido. Ande a pé por ruas que normalmente não caminha. Pegue uma condução coletiva – ônibus, metrô ou barca. Converse com estranhos. Vá a lugares que não costuma ir. Misture-se com tribos diferentes. Aprenda. Deixe a sua empatia vir à tona. Comova-se com a história do outro. Conte a sua história. Tenho certeza que você não vai sair igual dessa experiência. É impossível não se solidarizar com o outro, desde que se proponha a olhar além da aparência do desconhecido, reconhecendo nele o que ele é na realidade: um ser humano, vivo, igual a mim, independente de raça, credo ou posição política. E uma vez que saímos da nossa zona de conforto, é difícil voltar para ela.

Texto extraído do blog Alma Feminina de Anna Gabriela Malta
www.almafemininablog.wordpress.com/2015/10/26/a-vida-no-gueto/

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