A Filosofia Cristã – Parte 05

[Baseado em escritos do Frei Raniero Cantalamessa]

O mundo grego era basicamente aristocrático, um universo hierarquizado no qual os melhores por natureza deviam, em princípio, estar “acima”, enquanto se reservava aos menos bons os níveis inferiores.

A POLIS (cidade) Grega se baseava na escravidão.

O cristianismo introduz a noção de que OS HOMENS SÃO TODOS IGUAIS EM DIGNIDADE.

Os gregos entendiam que a natureza, o ser humano inclusive, é profundamente hierarquizada, ou seja, desigual. Cada categoria de seres desenvolve gradações que vão desde a excelência mais sublime até a maior mediocridade.

Somos mais ou menos fortes, rápidos, grandes, belos inteligentes. Todos os dons naturais são suscetíveis de uma distribuição desigual.

Para os gregos a noção de virtude está diretamente ligada às de talento ou dom naturais.

Dentro dessa concepção, alguns homens são naturalmente feitos para comandar, outros para obedecer.

Para os cristãos essa convicção é ilegítima. O IMPORTANTE NÃO SÃO OS TALENTOS NATURAIS, OS DONS RECEBIDOS NA NASCIMENTO. A HERANÇA RECEBIDA, IMPORTA O USO QUE SE FAZ DESSAS QUALIDADES RECEBIDAS NO INÍCIO, NÃO NAS QUALIDADES EM SI.

Por outro lado, o que É MORAL OU IMORAL É A LIBERDADE DE ESCOLHA, O LIVRE ARBÍTRIO.

Com o Cristianismo saímos do universo aristocrático para entrar no da “MERITOCRACIA”. A dignidade dos seres humanos é a mesma para todos, quaisquer que sejam as desigualdades de fato, já que ela repousa na liberdade e não mais nos talentos naturais.

Os talentos herdados naturalmente, todos, sem exceção, podem ser utilizados tanto para o bem como para o mal.

No plano moral o cristianismo opera uma verdadeira revolução na história do pensamento, que se fará sentir até na Declaração dos Direitos do Homem, de 1789, quando, pela primeira vez na história da humanidade, é a liberdade e não mais a natureza que se torna o fundamento da moral.

A revolução Francesa, embora fortemente hostil à Igreja, não deixa de dever ao cristianismo uma parte essencial da mensagem igualitária que vai contrapor ao Antigo Regime. LIBERTE, FRATERNITE, IGUALITE, é o símbolo da bandeira revolucionária.

Constata-se ainda hoje, o quanto as civilizações que não conheceram o cristianismo têm dificuldades em dar à luz regimes democráticos.

Além desses avanços ultramodernos, o cristianismo estabeleceu que, no PLANO MORAL, O ESPÍRITO DA LEI É MAIS IMPORTANTE DO QUE A LETRA DA LEI.

O foro íntimo é mais decisivo do que a observância literal da lei.

A defesa de Cristo da mulher adúltera é um exemplo.

Embora existisse uma lei que ordenava o apedrejamento da mulher adúltera, o “foro íntimo” faz com que Cristo se afaste dos que desejam simplesmente aplicar estrita e mecanicamente a lei e apela para a consciência dos presentes. Como se lhes pedisse: “Vocês têm certeza do que estão fazendo? São melhores do que esta mulher que estão prestes a matar e que talvez tenha pecado apenas por amor?”

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One Comment

  1. Cristianismo e utopia.
    Prática e palavra.
    Realmente, ninguém como Cristo.
    Ninguém mais houve e nem haverá semelhante a Ele.
    Os demais, seres errantes, que em lampejos de alma tentam imitá-lo,
    fadados ao fracasso. Suas ideias permanecem, seus gestos, parte de um passado que se quer presente, se oculta a mente dos mais intelectualizados; entretanto se Ele mesmo não se apresenta, ainda veremos os filisteus, os amorreus, Sauls, Herodes, Neros, Hitlers, Osamas, Reagans, Obamas, Clintons, Trumps, Temers, multidões em réplica nascendo e renascendo nos bastidores da história, semeando incessante joio.
    Se a revolução francesa teve algo de cristão, foi o martírio de bispos.
    A revolução francesa, na minha humilde opinião, não teve nada de cristão.
    Uma catarse hedionda. Um povo munido de armas, matando sob a égide de belas palavras: Liberdade ( que usaram para tirar vidas), Fraternidade (convertida em fratricídio), Igualdade ( que elimina os desiguais). A democracia também levou Jesus ao calvário. Não creio que tenhamos vivido uma democracia justa ou, ainda que periférica, semelhante em algo ao que se diz cristão.
    Bom artigo, embora discorde da perspectiva do autor!

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