A Filosofia Cristã – Parte 04

[Baseado em escritos do Frei Raniero Cantalamessa]

A primeira epístola de S. João1,1-3 diz que o “Verbo Encarnado” foi visto, apalpado, tocado, ouvido e esse testemunho é digno de fé.”

Não é mais uma questão de inteligência ou raciocínio. Ao contrário, como diz S. Agostinho: “Os inteligentes e os soberbos, atarefados com seus raciocínios, passarão, com orgulho e arrogância, à margem do essencial.”

O Requisito para se aplicar e praticar a nova teoria não é mais o entendimento dos filósofos, mas a HUMILDADE. Tema onipresente entre aqueles que foram, com São Tomás de Aquino, os dois maiores filósofos cristãos: Santo Agostinho século IV d.C no Império Romano, e Pascal na França, no sec. XVII.

S. Agostinho in “Cidade de Deus”, dirigindo-se aos filósofos:
1 “Os soberbos desdenharam de tomar esse Deus como senhor porque o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e isso eles não podiam admitir. Porque? Por que seria necessário que deixassem a inteligência e a razão no vestiário e a substituíssem pela confiança e pela fé.”

Existe na religião cristã uma DUPLA HUMILDADE que se opõe de saída à filosofia grega:
A HUMILDADE OBJETIVA, de um logos divino – JESUS – modesto ser humano;
E a HUMILDADE SUBJETIVA de nosso próprio pensamento que é obrigado a abandonar a razão para ter confiança, para dar lugar à fé.

Motivo pelo qual S. Paulo, 1 Cor. 1,23 afirma que “CRISTO CRUCIFICADO ESCÂNDALO PARA OS JUDEUS E LOUCURA PARA OS PAGÃOS

Para os judeus porque um Deus fraco, que se deixa martirizar e pregar na cruz, sem reagir, parece desprezível.

Para os pagãos (gregos), porque uma encarnação tão medíocre contradiz a grandeza do LOGOS tal como a concebe “a sabedoria do mundo” dos filósofos estoicos. É justamente esse escândalo e essa loucura que constituem sua força: é por sua humildade, e exigindo-a dos que vão crer nele, que Ele vai se tornar o porta-voz dos fracos dos pequenos, dos subalternos. Milhões de cristão se reconhecem na estranha força dessa fraqueza.

Atribuir à humildade e à fé primazia sobre a razão vai colocar a filosofia como SERVA DA RELIGIÃO – fórmula que surge no sec. XI na escrita de S. Pedro Damião, teólogo cristão.

Contudo, Cristo sempre se exprimiu por parábolas, por símbolos, que devem ser interpretados se quisermos absorver-lhes o sentido mais profundo e, para isso, se utiliza do aparato filosófico.

A partir de S Tomás, no sec. XIII, a atividade da filosofia cristã vai se tornar cada vez mais importante, levando à elaboração de “provas da existência de Deus”, tentando mostrar que é preciso admitir que existe um criador inteligente de todas essas maravilhas que existem no mundo.

A filosofia cristã vai se tornar uma ESCOLÁSTICA, ou seja, uma disciplina escolar, não mais uma sabedoria ou disciplina da vida, preconizando, no plano moral, pelo menos três novas idéias de espantosa modernidade.

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