A Filosofia Cristã – Parte 02

[Baseado em escritos do Frei Raniero Cantalamessa]

Na teologia cristã o DEMÔNIO não é aquele que nos afasta, no plano moral, do caminho reto, apelando para a fraqueza da carne. É aquele que, NO PLANO ESPIRITUAL, faz todo o possível para nos SEPARAR (dia-bolos, em grego, significa aquele que separa), DA RELAÇÃO VERTICAL QUE LIGA OS VERDADEIROS CRENTES A DEUS, o único que nos salva da desolação e da morte.

O diabo separa o homem de Deus e o abandona, assim, a todas as angústias que a fé tinha conseguido curar.

Hannah Arendt explicou (in A Crise da Cultura) que – os Antigos consideravam dois modos de aceitar os desafios lançados pelos humanos pelo fato de sua imortalidade:

-PRIMEIRA – PROCRIAÇÃO, tendo filhos assegura-se a “descendência”, inscrevendo-nos no ciclo eterno da natureza, no universo das coisas que não podem morrer. Essa concepção, no entanto, é falha, pois não eleva o ser humano acima da condição das outras espécies animais. Além disso, por mais filhos que se deixe não se evitará a própria morte, como também, estar-se-ia apenas garantindo a sobrevivência da espécie, não do indivíduo.
-SEGUNDO – PRÁTICA DE ATOS HERÓICOS que sejam objeto de narrativas, pois o traço escrito tem como principal virtude vencer a efemeridade do tempo.

Os fenômenos naturais são cíclicos, repetem-se indefinidamente:
O mundo natural tem certa forma de “imortalidade” – o dia vem depois da noite; o inverno depois do outono, e essa repetição faz com que ninguém possa esquecê-los – ao passo que todas as coisas que devem sua existência ao homem, como suas obras, ações e palavras, são perecíveis, contaminadas pela mortalidade de seus autores.

A finalidade dos livros de história da Antiguidade, segundo Arendt, ao relatar os feitos heroicos, por exemplo, de Aquiles durante a guerra de Troia, é tentar arrancá-lo à esfera do perecível para igualá-lo à da natureza.
Todavia, é preciso que se diga que, para muitos, ela não será mais do que um pífio consolo, para não dizer, uma forma de vaidade.

Os dois freios que paralisam e impedem alcançar a plenitude da vida, são O APEGO AO PASSADO E A PREOCUPAÇÃO COM O FUTURO, QUE CONTINUAMENTE NOS LEVAM A PERDER O INSTANTE PRESENTE, NOS IMPEDEM DE VIVER PLENAMENTE.

A NOSTALGIA DOS PARAÍSOS PERDIDOS, DAS ALEGRIAS E DOS SOFRIMENTOS DA INFÂNCIA, TEM SOBRE NOSSAS VIDAS UM PESO MAIOR QUANDO NÃO A RECONHECEMOS.

PARA SERMOS SALVOS E ASCENDERMOS À SABEDORIA É IMPERIOSO APRENDER A VIVER SEM MEDOS VÃOS, NEM NOSTALGIAS SUPÉRFLUAS, O QUE IMPLICA EM QUE DEIXEMOS DE HABITAR PERMANENTEMENTE AS DIMENSÕES DO TEMPO – PASSADO E FUTURO- QUE NA REALIDADE NÃO POSSUEM NENHUMA EXISTÊNCIA, PARA NOS LIGARMOS TANTO QUANTO POSSÍVEL AO PRESENTE.

Os estoicos gregos nos ensinam :
“ESPERAR UM POUCO MENOS, AMAR UM POUCO MAIS.”

Esquecemos que não há outra realidade além da que é vivida aqui e agora, que essa fuga para adiante nos faz com certeza falhar. Assim que o objetivo é alcançado temos quase sempre a experiência dolorosa da indiferença, ou mesmo da decepção.

As dificuldades de viver e o trágico da condição humana não são modificados e, segundo famosa expressão de SÊNECA: “ENQUANTO SE ESPERA VIVER, A VIDA PASSA.”

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