A arte do relacionamento entre os homens e Deus – Parte 08

Só podemos experimentar o puro amor quando o experimentamos misturado com o amor por uma pessoa que nos põe em contato com a fonte do amor divino.

Quem ainda não experimentou esse amor precisa ser conduzido a Deus por um intermediário que tenha fé em Deus.

O estar apaixonado coloca-me em contato com a fonte do amor divino que jorra em mim.

Não importa se meu amor é correspondido pelo outro. Não fico sem amor quando não sou correspondido, ao contrário, a decepção pode tornar-se um caminho para a interiorização e para percepção da fonte interior do amor.

O estar apaixonado coloca-me em contato com o amor que está em mim.

Mas estar apaixonado também coloca em jogo a projeção.

Projeto meus anseios no outro, amo a mim mesmo na mulher ou no homem por quem me enamorei, que me faz lembrar das coisas que negligenciei em mim.

Por isso é importante tomar consciência daquilo que aquela mulher ou aquele homem me faz lembrar.

O estar enamorado pode se transformar em amor desde que o amor que sinto por essa pessoa possa colocar-me em contato com o potencial de minha própria alma tornando-me, assim, livre para enxergar a pessoa tal como ela realmente é, e não na imagem que nela projeto.

As palavras da carta de João: “Deus é amor aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele” (1 Jo: 4,16).

Pretendem nos mostrar como devo lidar com minha experiência de amor frágil e sempre marcado pela finitude.

Cada um de nós anseia por mais amor do que um ser humano consegue dar.

Somente através do luto dessa fragilidade, dessa limitação e finitude, chegaremos ao fundamento de nossa alma e, ali, fazer uma experiência profunda – encontrar a fonte do amor divino que jorra em nós.

Em lugar de queixar-nos sobre o que permanece inacabado em nossa experiência concreta de amor deveríamos deixar-nos conduzir pelo limitado amor à fonte do ilimitado amor divino.

Quando bebemos da fonte do amor divino, que jamais se esgota, perde-se em nós o receio de que nosso amor possa exaurir-se, de que o sentimento pelo outro se esvaneça.

Não espero que o outro preencha todos os meus anseios, mas que ele, com o que de amor me demonstra, desperte em mim a saudade do fonte do amor que em mim mesmo brota.

Essa fonte do amor, afinal, é Deus.

O acesso a essa fonte passa pela experiência concreta do amor humano.

Se amarmos o irmão ocasionalmente fechado, a irmã difícil, o companheiro antipático, entramos em contato com a fonte divina.

Igualmente, por meio das palavras da bíblia que nos tocam, podemos atingir a fonte do amor na própria alma.

No entanto, muitas vezes verificamos que essa fonte parece secar. Isso ocorre quando jogamos nela nossas preocupações e receios, nossa superficialidade cotidiana.

Mas, quando a palavra de Cristo nos encontra, então essa fonte volta a borbulhar de tal modo que modifica nosso pensar e nosso sentir.

Quantas vezes um casal discute por questiúnculas e essas discussões levam a rupturas permanentes.

Devemos distinguir sempre o que esta por trás dessas discussões.

Os filósofos estoicos gregos já diziam: “ninguém pode te ferir senão tu mesmo. Não são as pessoas que te ferem, mas as concepções que tens das pessoas”

Muitas vezes não foi o homem que magoou a esposa, mas uma expectativa não correspondida que ele tinha dela, ou vice-versa.

A espiritualidade no relacionamento se expressa por uma postura bem determinada na fé – enxergar mais profundamente, mais além – ver o Cristo em cada ser humano.

Em rituais, sinais de recordação que mantém vivo o amor, podemos estimular o amor um pelo outro; como por ex. O despedir-se sempre com um beijo, orar juntos o Pai Nosso no final do dia, andar juntos com as mãos dadas.

Não devemos deixar que a culpa por nossos erros de relacionamento nos impeçam de construir um relacionamento harmonioso.

A falta de perdão a si mesmo gera culpa. O parceiro prefere se separar por não conseguir se confrontar com a culpa de ter magoado o parceiro.

Somente nos perdoando podemos lidar honestamente com o outro.

Quem não se perdoa perde a autoestima.

Em relação ao perdão do outro muitas vezes os parceiros não estão dispostos a se perdoar mutuamente. Nesse caso irão sempre reparar nas falhas mútuas.

Quando não acontece o perdão cresce a repulsa recíproca e, em algum momento, o amor pode se transformar em ódio.

Perdão significa libertação da energia negativa que fervilha na própria alma através da mágoa.

Mas o perdão não é compatível com a atribuição da culpa ao outro. Ao contrário, eu perdoo tendo consciência de que também carrego minha parte de culpa.

Outra postura fundamental para a manutenção de um relacionamento espiritual e a confiança, apesar de em todo relacionamento existir decepções.

O importante é não se fixar apenas nas falhas ou fracassos do parceiro, mas em seu núcleo bom.
Entender que eu também experimento desencantos comigo mesmo. Não faço o que queria, sou invejoso, orgulhoso, embora não queira.

Finalmente, em qualquer relacionamento mais estável deve-se desenvolver o atributo da responsabilidade, que foi bem delineado por Saint Exupery no livro “O Pequeno Príncipe”:

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

Quando cativo uma pessoa sou responsável por ela, me comprometo com ela, assumo responsabilidade por ela.

Mesmo quando o relacionamento fracassa ainda continuo responsável pelo outro.

Devo prestar contas diante de minha consciência, diante do outro e diante de Deus.

Essa responsabilidade vale inclusive quando um dos parceiros se apaixona por outra pessoa.

Algumas pessoas acham que o parceiro que escolheram preencherá todas as suas expectativas.

Contudo, no dia a dia, experimentam a deficiência no próprio relacionamento e passam a achar que encontrarão a vida plena em um novo relacionamento.

Não levam em conta que esse preenchimento, essa plenitude, não é encontrada em nenhum ser humano. Troca-se apenas de defeitos.

Além disso, e preciso levar em conta a responsabilidade que assumiram.

Preciso responder ao parceiro que queria envelhecer a meu lado, e que me quer como o pai ou a mãe de meus filhos.

Mesmo quando o relacionamento acabar deve-se agir de maneira responsável com a família. Não se pode continuar seu caminhar individual deixando os outros para se arranjarem como puderem. Não podemos tratar pessoas como coisas que nos desapegamos.

Quem assume responsabilidade se torna humilde. Admite que feriu outras pessoas. Coloca-se no lugar daquele a quem magoou. Oferece-lhe uma resposta à dor e a decepção que sentiram.

A espiritualidade aponta para além de si mesmo.

Os parceiros são peregrinos em uma caminhada em direção a um fim que os une para além da morte, rumo a Deus.

Victor Frankl judeu que sobreviveu ao campo de concentração por ter dado um sentido a sua vida, pensando sempre na mulher e nos filhos, mesmo quando cavava no chão duro, congelado, sepulturas para seus colegas de prisão, esperando sempre voltar a vê-los quando acabasse seu martírio não desistindo da vida, escreveu:

“Experimentamos nossa vida como valiosa quando a ela nos dedicamos de forma proveitosa.”

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