A arte do relacionamento entre os homens e Deus – Parte 07

Certo dia, depois do episódio narrado anteriormente sobre o quase desastre aéreo em Brasília, cheguei um pouco mais cedo em casa e a encontro cheia de mulheres que nunca tinha visto na vida.

Todas ajoelhadas, na grande sala do primeiro andar, diante da imagem da N.S. da Rosa Mística que Teresa levava no colo nas casas de quem quer que lhe pedisse.

A fé que percebi naquelas mulheres era tao grande que chegava a ser palpável.

Fiquei sensibilizado e comecei a falar comigo mesmo dirigindo-me para a imagem.

“Se você é tao poderosa que coloca toda essa gente de joelhos diante de você e faz com que minha mulher a carregue no colo para as casas das pessoas, quero apenas uma coisa – quero crer como minha mulher crê.”

Sem ter consciência, tinha dado uma ordem espiritual a minha mente que passou a obedecê-la. Só fui conscientizar-me do que tinha feito depois de vários anos trabalhando na Comunidade Emanuel e lendo os livros de Dom Cipriano.

Naquele momento não ocorreu nada, mas a ordem espiritual começou a produzir efeitos ainda invisíveis.

Certo dia, fui apanhar teresa no grupo de oração da Comunidade Emanuel, localizada no centro da cidade, próximo ao local onde eu trabalhava.

Como a reunião terminava tarde preferi esperá-la e não tive outro remédio senão assistir o final do grupo.

Foi quando o coordenador, antes do término, pediu para que cada um colocasse a mão no ombro do companheiro da esquerda e fizesse uma oração por ele.

De oração eu só conhecia a Ave Maria e comecei a balbuciar essa prece ao colocar minha mão no companheiro da esquerda.

Foi então que me dei conta do companheiro da direita – um negro baixo, com a cabeça toda branca, com uma roupa diferente para a época – camisa quadriculada, suspensórios vermelhos com desenhos de grandes flores, e calça jeans, com certeza norte-americana, pois ainda não a produzíamos no Brasil.

Ele colocou a mão em meu ombro e começou a orar em línguas, coisa que eu jamais havia ouvido.

Nesse momento senti meu ombro começar a vergar sob o peso daquela mão, não tanto pelo peso, mas pela sensação estranha que comecei a sentir.

O que não havia sentido naquele dia em minha casa diante da imagem de N. S. da Rosa Mística, senti naquele momento.

A partir dai, comecei a ir apanhar Teresa semanalmente, nos dias da reunião do grupo de oração, e assistia o grupo integralmente. Interessei-me e procurei conhecer melhor o que se fazia na Comunidade.

Procurávamos intermediar nossa participação no grupo de oração da Comunidade com o relacionamento com nosso círculo de amizades.

Fatalmente quem começa uma caminhada religiosa começa a fazer uma seleção entre as pessoas com as quais se relaciona.

Alguns nos aceitam nessa nova fase, outros, no entanto, passam a nos ridicularizar.

Não conseguem nos ver nessa nova posição e, se fraquejarmos, desistiremos dos primeiros passos para uma vida nova, de liberdade, uma vida onde somos nós que escolhermos quais os caminhos devemos trilhar, não mais os outros.

Não procuramos fazer da religião um escape para nossa eventual incapacidade de relacionamento.

Escolhemos pessoas que comungavam dos mesmos interesses e nos afastamos gradativamente dos que acreditam em outras coisas.

Com o tempo, verificamos que existem pessoas que usam a religião como forma de ultrapassar ou compensar as dificuldades de relacionamento devido ao próprio relacionamento consigo mesmo.

Acreditam ser mais importantes do que os outros por estar participando de reuniões em um grupo especial que tem relacionamento direto com Deus, e passam a tratar quem não participa como se fossem inferiores.

Isso é uma fuga.

Ao não desejar admitir o sofrimento pela incapacidade de relacionamento, utilizam um artifício: imaginam ser um com Deus.

Essa fantasia coloca-os acima dos outros pois desprezam os que tem necessidade de se relacionar com o cônjuge e com amigos, imaginado que já ultrapassaram espiritualmente essa carência afetiva.

O erro de tal sofisma se baseia no fato de tentar humanizar Deus confundindo-o com a pessoa humana.

Pela tradição teológica o ser humano torna-se um com Deus a partir da unidade da natureza divina e humana em Jesus.

Nós, porém, não nos dissolvemos em Deus nem nos misturamos a ele.

Permanecemos sempre pessoas que se unem a Deus. Por isso, a mística cristã sempre comparou a união do ser humano com Deus à união entre o homem e a mulher, que tornam-se completamente um, permanecendo sempre pessoas individualizadas. Ultrapassam a si mesmo no êxtase do amor.

O ser humano, portanto, é uma pessoa que é interpelada e vocacionada por Deus, um interlocutor de Deus que anseia por tornar-se um com esse Deus que o interpela.

A ação de procura cabe a Deus e não ao homem.

Cada ser humano anseia por amar e ser amado.

Nesse caminho cada um faz experiências de plenitude e de decepção, de encantamento e de ferimento.

Nos preocupamos em ser bem avaliados por terceiros, em receber elogios por nossos esforços, por nosso desempenho.

O apóstolo S. Lucas ilustra bem isso com a história de Marta e Maria.

Enquanto Marta se esmera em receber bem o hóspede, em arrumar bem a casa, Maria simplesmente fica aos pés do senhor ouvindo o que ele tinha a dizer.

Quantas vezes somos como Marta, nos preocupando em fazer tudo corretamente, organizar tudo a tempo e a hora, e não nos deixamos ser a Maria que existe dentro de cada um de nós.

Deixar tudo de lado apenas para aproveitar o momento presente.

Muitos podem achar que isso é pura perda de tempo, mas não foi essa a interpretação de Jesus:

“Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas, no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só. Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.” (Lc 10,41-42)

A meta dessas experiências é que sejamos um só no amor, que alcancemos a fonte do amor que jorra em nós e ninguém pode nos tirar.

Esse amor é mais do que sentimento, é uma qualidade do ser, conforme lemos na Primeira Carta de João

“Deus é amor: aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele” (1 jo: 4,16).

Este é o amor puro, denominado ágape, poucas vezes experimentado pelo ser humano.

Tenho um amigo – Rubinho – que fez operação de transplante de fígado com sucesso absoluto e recuperou-se rapidamente.

A odisseia de conseguir um fígado em condições de transplante foram inimagináveis, mas tudo foi ultrapassado.

Já no hospital aguardando a chegada do médico que iria operá-lo, desconhecia os obstáculos que antecederam o transplante.

Rubinho e um homem de fé inabalável. Durante o período de espera, na fila pelo doador, sentindo- se já sem forças, teve um sonho durante a noite. Acordou a mulher e disse:

“Vou ficar curado. Vi Jesus entregando-me o seu fígado em troca do meu.”

Esse homem relatou-me uma experiência extraordinária.

Andando de bicicleta na praia de Copacabana, meses depois da operação, de repente sentiu um amor tão grande enchendo seu coração com tamanha alegria que começou a chorar.

Pedalava e chorava. As lágrimas corriam soltas pelo rosto quase o impedindo de pedalar.

Não era um amor por alguém, mas por tudo que o rodeava – a manhã maravilhosa, o sol que lhe aquecia o corpo, a brisa que lhe refrescava o rosto, a praia, o mar – a vida. Nesse momento sentiu a sensação de ser um com Deus, ele era o próprio amor. Era mais do que um sentimento, era um espaço no qual vivia. Compreendeu a vida como uma dádiva imerecida e chorava por gratidão.

Nunca mais experimentou tal sentimento, mas essa única vez valeu toda a sua vida.

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Recomendo a leitura do livro de Dom Cipriano: “TERÇO DA VITÓRIA PELO PODER DO SANGUE DE JESUS” e “VITÓRIA PELA PALAVRA

No primeiro o autor mostra a Paixão de Cristo, sua crucifixão, e nos explica porque o Sangue de Jesus tem poder e como podemos usar esse poder para nos proteger do maligno.

No segundo explica que nossa palavra tem poder, pois é gerada em nosso coração antes de ser pronunciada. Nosso coração é moradia do Espírito Santo. Logo, o que pronunciamos tem força divina e tem efeito, para o bem e para o mau.

Portanto, cuide-se em só pronunciar coisas que sejam benéficas.

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