A arte do relacionamento entre os homens e Deus – Parte 06

Teresa já tinha uma caminhada religiosa, pois estudou em colégio de freiras e sua mãe era extremamente mariana, assim como suas irmãs.

Eu, no entanto, não tinha essa intimidade com Deus.

A igreja de minha época era lugar tristonho, as missas eram rezadas em latim, idioma incompreensível para mim, as mulheres todas cobertas com véu negro, se fossem casadas ou brancos se solteiras, voltavam da mesa de comunhão cabisbaixas, com o rosto tristonho como se estivessem carregando o peso de todos os pecados do mundo.

Não era o local preferido para um jovem em pleno vigor da idade no verão carioca.

Como morava em Ipanema, a praia era o meu paraíso e não foi difícil fazer a escolha.

Com o passar do tempo fui me distanciando cada vez mais dessa igreja autoritária, onde quase tudo que era agradável e prazeroso para um jovem era proibido.

Cheguei a ponto de afirmar que Deus não fazia parte de minha vida.

Dizer isso e fácil, o difícil é provar.

Eu tive a oportunidade quando o avião em que viajava para Brasília teve um problema.

Quando chegava em Brasília o piloto avisou que havia um pane no trem de aterrissagem da frente.

Explicou que a luz do painel não estava acendendo indicando que o trem de aterrissagem não estava preso.

Portanto, assim que o pneu tocasse no solo o trem de aterrissagem recolheria e o avião daria um “cavalo de pau”.

Por isso, pediu aos passageiros que estivessem nas filas da frente se deslocassem para trás, quem tivesse dentadura que as tirasse, a mesma coisa com os óculos, lápis ou canetas nos bolsos, tirassem os sapatos e pedissem as aeromoças os pequenos travesseiros para colocá-los entre as pernas assumindo a posição de choque.

O desastre era iminente e a bordo comecei a ouvir o balbucio de orações, resmungos, choros.

Eu não pensei um segundo sequer em Deus ou em algum santo.

Pensei em minha família que não iria mais ver. Nas minhas filhas, ainda pequenas, que não veria desabrochar como mulheres. Não conheceria meus netos.

Lembrei-me das flores que a Teresa tanto pedia e eu, por esquecimento, ou simplesmente por achar isso muito banal, não dava.

Agora iria morrer sem dar as flores para Teresa. A mulher que me acompanhara durante toda a minha vida. Uma coisa tão prosaica e eu não tinha tido a sensibilidade de satisfaze-la.

Fechei os olhos e lembrei-me dos versos que o poeta chileno, Pablo Neruda, fez para a mulher amada na casa que possuía a beira do oceano pacífico denominada “Isla Negra”:

“Quando eu morrer quero tuas mãos sobre meus olhos;
Quero a luz e o brilho de tuas mãos amadas;
Passar uma vez mais sobre mim seu viçor
Sentir a suavidade que mudou meu destino.
Quero que vivas, enquanto eu, adormecido, te espero
Quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento
Quero que cheires o amor do mar que amamos juntos e
Que sigas pisando a areia que pisamos
Quero que o que amo continue vivo
E a ti amei e cantei sobre todas as coisas
Por isso, segues tu florescendo, florida
Para que alcance tudo o que meu amor te ordena
Para que passeie minha sombra por teu pelo
Para que assim conheçam a razão de meu canto.”(in “cem poemas de amor)

Agora era tarde, restava esperar pelo pior.

O avião começou a descer, os passageiros ficaram mais nervosos vendo a pista de aterrissagem completamente tomada por uma espuma espessa, os carros dos bombeiros e as assistências correndo ao lado do avião que se aproximava para o pouso fatal.

O piloto, muito habilmente, começou a aterrissagem fazendo com que com a cauda do avião pousasse em primeiro lugar e, pouco a pouco, foi abaixando a parte da frente.

Quando o pneu da frente finalmente tocou firmemente no solo o avião pousou suavemente.

Uma explosão de alegria tomou conta dos passageiros.

O piloto apressou-se a informar que o pane tinha sido na lâmpada do painel que estava queimada. O trem de aterrissagem estava bem firme.

Desci do avião e fui almoçar na casa de amigos. Durante o almoço relatei o meu susto e, para minha surpresa, a mulher dele indagou se eu não havia pensado em Deus. Ali, naquele momento, me dei conta que deus não fazia parte de minha vida.

Mesmo assim, sem dar maior importância a esse fato, embarquei de volta no mesmo dia e, é claro, antes de chegar em casa parei em uma flora e comprei um grande buquê de flores.

Cheguei em casa e não conseguia pegar a chave, pois as mãos estavam ocupadas com as flores de um lado e com a pasta de trabalho no outro.

Toquei a campainha e Teresa abriu a porta. Parou, deu dois passos para trás, olhou-me de alto baixo espantada, e perguntou:

“O que é que você andou fazendo em Brasília?”

Tive que tomar mais alguns sustos para voltar a dar flores para Teresa.

Mas agora minha casa vive cheia de flores!!!

Pode ser que eu não tivesse Deus em alta conta, mas ele, com certeza, me levava em conta.

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No primeiro o autor explica que o amor pode modificar nossas circunstancias e que não é preciso ser santo para praticar aquilo que Jesus nos recomendou: “amar como eu vos amei”

No segundo demonstra que Jesus não pode fazer nada no mundo a não ser através de nós, seres humanos. Somos nós que precisamos escolher a quem servir, a Deus, ou ao demônio.

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