A arte do relacionamento entre os homens e Deus – Parte 02

Vimos no primeiro texto que relacionamento humano é difícil, exige entrega, doação de nós mesmos, humildade e, principalmente, muito amor entre as partes para perdoar eventuais falhas e derrapadas.

Verificaremos, agora, que muitas pessoas tentam ultrapassar essas dificuldades inerentes ao relacionamento humano, procurando mudar de parceiro.

Continuam com a falsa impressão que encontrarão em algum ser humano a resposta para seus anseios e desejos.

Depois de várias tentativas verificam que isso é impossível.

Hoje em dia, as possibilidades de assumir relacionamentos temporários com um número infinto de “parceiros de desejo” parecem ilimitadas.

Bauman, filósofo polonês, criou um nome para esse fenômeno: “amor líquido.”
É o amor descompromissado, que não deseja criar laços afetivos de maior duração, pois amar exige sacrifícios, doação, altruísmo, falta de egoísmo.

Essa busca irrestrita e infinita de novos parceiros não leva a pessoa à felicidade, não plenifica sua ânsia que aspira sempre alguma coisa mais, e isso ela não consegue em uma pessoa ou na posse de alguma coisa.

No momento mesmo em que consegue relacionar-se com alguém ou possuir algo, deseja sempre mais.

Mais amizades temporárias, mais coisas, mais posições sociais, mais, mais…..

O homem tem desejos insaciáveis.

A velocidade do mundo atual leva muitos a não cultivarem a paciência para o crescimento de um relacionamento mútuo. Essa falta de paciência leva rapidamente a decepção seguida da separação.

Que diferença da minha época.

Conheci Teresa, minha esposa, com a qual estou casado há cinquenta anos, numa festa de aniversário e se esforçar-me um pouco sou capaz de lembrar até do vestido que ela usava.

Namoramos e noivamos no período de três anos.

Havia tempo para as pessoas se conhecerem melhor, experimentar situações durante as quais cada um era obrigada a se revelar, nos seus momentos bons e nos maus.

Nosso noivado não foi diferente. Dei provas de que poderia enfrentar situações difíceis para defender aquela que havia escolhido como minha companheira na estrada da vida. Teresa, por sua vez, mostrou seu lado apaziguador, sua capacidade de conciliação, buscando sempre a contemporização nos momentos críticos.

Na verdade, nos completávamos.

Mas, sem dúvida, a primeira impressão é importante. E a jovem Teresa era sedutora, mas tinha consciência de seu papel no matrimônio, lutando tenazmente pelo que considerava seus direitos de mulher.

Depois do casamento, por exemplo, durante ainda o primeiro ano de casado, estudando na faculdade de direito, Teresa convidou várias amigas para estudar em nossa casa.

Ela era a única casada entre as amigas de sua turma e elas faziam de nossa casa a casa delas.

Certo dia, cheguei um pouco mais cedo. Trazia na cabeça os aborrecimentos no trabalho. Queria ficar sozinho com minha companheira, partilhar minhas dificuldades, ouvir suas ponderações e me vi impedido de abrir minha alma como gostaria diante do tumulto que as amigas de Teresa faziam.

Pedi para despedir as amigas explicando que queria ficar sozinho.

Ela ficou uma fera, disse que a casa também era dela e não admitia despachar as amigas.

Diante dessa irredutibilidade “perdi a face”. Não tive jeito senão sair de casa deixando-a livre para usufruir da companhia das amigas, consideradas por ela mais importantes do que eu.

Sai e fiquei sem saber para onde ir.

Escolhi um cinema que ficava perto de casa, mas não consegui ver o filme.

Minha cabeça estava no conflito matrimonial, na reação da Teresa que eu considerava indevida.

Escolher as amigas a mim parecia-me uma afronta insuportável.

Passou-me pela cabeça até pedir o divórcio, pois não compreendia a teimosia da esposa que havia prometido no altar, diante de Deus, obediência ao marido.

Sai do cinema e fiquei andando na rua passando por pessoas, vitrines, como um sonâmbulo, meus olhos olhavam e não enxergavam.

A raiva toldava de meus sentidos.

Só lembrava de ter sido praticamente expulso de casa.

Pouco a pouco, porém acalmei-me e comecei a refletir sobre minha atitude.

Percebi que havia ultrapassado meu limite em relação à posse da casa, pois na verdade era mais dela do que minha, uma vez que foi a mãe de Teresa que a havia cedido para morarmos.

Refleti que Teresa também tinha o direito de ser visitada pelas amigas.

Entendi que meu comportamento talvez tivesse sido pautado por ciúmes.

Queria ficar sozinho com Teresa e, naquele momento, ela preferia ficar com as amigas.

Percebi que havia encurralado Teresa contra a parede sem deixar outra alternativa senão fazer a opção pelas amigas, caso contrário seria ela quem “perderia a face”. Como iria encarar suas amigas depois da capitulação?

Queria voltar mas não tinha “cara”. Como iria defrontar-me com Teresa depois de ter saído de casa daquela maneira? Como a encontraria? Como iria reagir? Estaria cercada pelas “amigas”? Eram dúvidas que assaltavam minha mente.

Mesmo assim resolvi voltar. Não tinha remédio, pois não tinha para onde ir. Evidentemente não passou pela minha cabeça voltar para casa de mamãe.

Quando cheguei na esquina da rua vislumbrei teresa no portão da casa já vazia.

Ao ver-me correu para mim e eu para ela. abraçamo-nos pedindo desculpas um ao outro.

Ambos reconhecíamos que tínhamos exagerado em nossa reação. Aprendemos que, “não se disputa quem é o melhor, ou quem está certo, mas buscando encontrar um caminho para uma compreensão melhor” como se lê no livro “Livre para ser Feliz” de Vânia e Cristiane Pimenta.

A reconciliação foi compensadora. Alguém já disse que o melhor da briga do casal é a reconciliação.

Essa foi a primeira lição que experimentamos sobre o poder libertador do perdão e como é fundamental para a manutenção de um matrimônio.

É difícil, precisa de muita reflexão, mas compensa. Os parceiros não ficam mais com culpa, ambos reconhecem que erraram e procuram consertar o erro cometido.

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Aconselho também ler os livros de Dom Cipriano: “O Segredo do Sucesso Familiar” e “Repensando o Matrimônio

No primeiro, o autor mostra como é importante contar com uma companheira católica que, nos momentos de crise, sabe clamar pelo auxílio do Espírito Santo que habita em nós para resolver a situação.

No segundo, dá seu testemunho de vida matrimonial, pois foi casado, teve um filho que morreu logo depois de nascido, e viveu um romance de amor antes de perder a mulher amada.

Percebendo que nada mais na sua vida tinha sentido foi procurar abrigo no Mosteiro de São Bento no Rio de Janeiro.

Foi ali, no convívio com seus confrades, que percebeu renascer o sentido de sua vida, encontrado depois de abandonar tudo o que o mundo dava valor – família, emprego, dinheiro – pelo chamado de Deus.

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5 Comments

  1. Temos a facilidade de fugir das dificuldades, o que pode nos levar a vida superficial. Buscamos no humano as respostas, as realizações, enganosamente. Por preguiça ou por outros motivos não mergulhamos na fonte inesgotável (Deus). E assim se confirma, “A nossa alma é grande de mais.”

  2. Cara Vânia
    Gostei muito de seu comentário. Você aborda as dificuldades fundamentais que a maioria de nós enfrenta diante de um mundo cada vez mais exigente em termos de consumismo, quer de coisas, dinheiro ou pessoas.
    A Paz de Jesus
    Mauro Malta

  3. Parabéns pela parte 02! Gostei muito da sinceridade como ilustrou o texto com um episódio do próprio relacionamento. E melhor do que narrar um caso de conflito no matrimônio foi apresentar o final com a reconciliação. Depois da situação de discórdia, ler que a esposa o esperava no portão de casa e a seguir os dois correram em direção ao outro para se abraçarem lembrou-me até da passagem do “Filho Pródigo”. Bela história que merece mesmo ser compartilhada!

  4. Linda a historia que ilustra o assunto! Já ouvi que exemplos são muito importantes, porém, testemunhos arrastam!!!!! Muito lindo!!!

  5. Muito lindo este relato, concordo plenamente com o que descreveu.
    Porém tenho uma dúvida, usando o próprio exemplo que citou, farei uma pergunta:
    Se após ter refletido e voltado para casa, ao contrario de ter encontrado sua esposa o esperando no portão e os dois terem reconhecido seus erros, ao voltar para casa não a encontrasse no portão e além disso, depois de te-la encontrado dentro de casa a mesma estivesse de cara feia e achando que só vc havia errado o que deveria ter sido feiro??
    E se sempre que houvesse uma briga, somente ela se sentisse sempre certa, o que fazer??

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