O Cristão, um outro Cristo

O simples fato de um homem nascer no mundo, não quer dizer que ele possa ser chamado filho de Deus. O homem que nasce no mundo é uma criatura de Deus, só quando tem em si o Espírito Santo é que realmente se torna filho de Deus, porque nasce de novo e passa ter em si uma participação da natureza divina e da íntima relação das três Pessoas da Santíssima Trindade. Alguns podem se perguntar: “E os outros?”

A Escritura diz que Deus quer que todos os homens se salvem (1Tm 2,4). Quando estamos na Santa Missa, durante a oração da consagração do cálice, o padre diz: “Esse é o cálice do meu Sangue. O Sangue da nova e Eterna Aliança que é derramado por vós e, por todos os homens, para a remissão dos pecados”.

A salvação de Deus é oferecida a todos os homens de todas as épocas. E a graça de Deus toca a todos sem acepção de pessoas, diz a Sagrada Escritura. Portanto, compete a cada homem – vindo a esse mundo – aderir ou não a Jesus. Todos recebem a graça da revelação e a todos compete fazer sua escolha. Essa oferta é feita a cada um, por isso, é necessário que aqueles que conhecem Jesus falem dele a cada geração que vem ao mundo, a fim de que aqueles que não ouviram falar de Jesus conheçam a boa-nova. Vocês têm falado de Jesus? Proclamam a boa-nova a todos? A vida de vocês e a maneira de serem faz com que as pessoas queiram ser cristãs ou não? E sobretudo, os homens vendo suas atitudes, suas palavras e sua maneira de viver, gostariam de ser cristãos como vocês ou não?

A Escritura diz que, na Epístola aos Efésios 1,4: “e nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante de seus olhos”. Fomos feitos para as boas obras que ele de antemão estabeleceu, determinou ou preparou para que nelas andássemos. E uma dessas boas obras é justamente falar de Jesus. Vocês têm falado de Jesus? Então, por que perguntam: “E os outros?” Se não se incomodam com os outros ao ponto de não irem até eles para falarem de Jesus, então, por que perguntam: “E os outros?”. Se não sentem no coração essa grandiosidade da vida em Deus, de tal maneira, que ela seja um impulso de amor para com os irmãos e um desejo de que todos participem da alegria e da felicidade que é essa vida; se vocês não têm esse impulso, muita gente que dependeria da sua palavra e do seu exemplo, jamais conhecerão a Jesus. Já pensaram nisso?

Somos admitidos por Deus, que nos chama e convida, a entrar em sua família e é mediante essa filiação divina, por graça e adotiva que entramos na família de Deus. Santo Atanásio, diz: “Por nossa origem e, segundo a nossa natureza, nós somos criaturas. Mais tarde, somos tornados filhos.

E, então, nosso Criador se torna também nosso Pai.” Mas isso se dá por uma opção pessoal: “Eu aceito o plano de Deus para mim! Aceito Jesus como meu Senhor e Salvador”. Se não aceito continuo como simples criatura. Deus não é nosso Pai por natureza. Mas, Pai do Verbo que está em nós, e que nele (Verbo) e, por causa dele, que chamamos Deus de Pai: Aba Pai (Paizinho).

É pela nossa adesão ao Verbo que nos tornamos filhos de Deus. No hebraico, adesão é igual a fé. Então aderir a Jesus é como dizer que a minha fé “me cola” a Jesus. Para ilustrar, adesão quer dizer que a minha fé faz de mim como um “papel adesivo”. E quem é que vai me “descolar” ou separar do amor de Deus que está em Cristo? Que criatura, altura ou profundidade? Nem a morte nem a vida, nem nada podem me separar, diz São Paulo (Cf. Rm 8,35.38-39). Nada nos separará do amor de Deus que está em Cristo Jesus.

São Cirilo de Alexandria diz: “Toda a filiação vem pelo Filho porque ele é soberanamente, o único e verdadeiro Filho”. Nele habita a plenitude da divindade, ele é consubstancial ao Pai – igual ao Pai –, co-eterno com o Pai, gerado, portanto, não é criado (como dizemos no nosso Credo). E nós, embora sejamos filhos, somos e permanecemos criaturas, por isso, nossa filiação só pode ser adotiva.

No entanto, embora explique e ilumine essa ideia de filiação, o termo adotivo está longe de reproduzir inteiramente a realidade. Não é suficiente para definir plenamente a nossa relação filial para com o Pai, porque a adoção divina é muito mais perfeita que a adoção humana, do que a adoção legal. Ela é de outra ordem, não é de ordem jurídica.

No caso adoção legal, aquele que era estranho para o adotante, torna-se seu filho, recebe seu nome, é envolvido de toda atenção, pode tornar-se seu herdeiro, mas tudo isso não passa de convenção jurídica, de uma ficção legal.

Porque adoção legal não infunde no adotado o sangue de seu pai adotivo, não faz dele um ser novo, não recebe a participação da natureza de quem o adota. Só o filho natural recebe essa participação da natureza do pai. O adotado permanece aquilo que era antes de sua adoção, apesar de todo amor que possa receber. É uma ficção jurídica. No entanto, a adoção que faz de nós filhos de Deus não é uma ficção jurídica, não é um modo de dizer ou uma metáfora amável, não é pura denominação exterior.

Ao assumir nossa natureza no seio da Virgem Maria, Jesus reuniu duas naturezas numa só Pessoa. Ele não se torna duas pessoas: pessoa divina e pessoa humana. Não! A natureza humana é absorvida, assumida pela Pessoa Divina. Cristo Jesus é Pessoa Divina, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade; ele é homem perfeito como nós, mas não é pessoa como nós, porque o princípio que assume a natureza humana é a Pessoa Divina, o Verbo Eterno de Deus.

Essa é a união mais íntima entre o Verbo Eterno e a natureza humana.

Pela adoção divina o Pai nos faz participar da filiação natural de seu Filho Único. Entre Jesus e nós também se estabelece uma união, a mais estreita que se possa conceber. Menor apenas que aquela assumida pelo Verbo, no seio da Virgem Maria. Portanto, nossa união com o Verbo Eterno de Deus é intimíssima. Essa união não é justaposta, não é só uma união moral.1

Nossa união com Jesus é uma de natureza de intimidade, intrínseca, por termos recebido a impressão da imagem de Deus nele. Essa união mais do que natural, maior do que aquela que existe entre a nossa alma e o nosso corpo. O nosso corpo só existe porque está totalmente impregnado pelo nosso princípio vital. Sem nosso princípio vital o corpo não funciona, morre. Embora, a união do nosso corpo com o nosso princípio vital seja indispensável e intimíssima. Porém, a nossa união com Jesus é ainda maior e mais íntima, é a maior que existe. É preferível seccionarmos corpo e alma do que nos separamos de Jesus. Por isso, que São Paulo nos diz: “Quem nos separará do amor de Deus, que está em Cristo Jesus?” Essa união, no grego chama-se a “união do ser” (“fisis”), uma união essencial, ontológica, maior do que a união entre o nosso corpo e a nossa alma.

É preciso que vocês entendam qual é a natureza de nossa filiação divina e qual é a natureza de nossa união com Jesus. Para vocês verem como, de fato, Jesus é a nossa vida e sem ele não somos nada. É uma união por identificação ao ser e à vida de Jesus. O Pai olha para nós e vê Jesus, é uma identificação. Entre Jesus e nós, entre Jesus e o cristão há uma comunidade de ser. Segundo uma expressão muito querida de São Paulo: o cristão está em Cristo. Quer dizer, que existe nele. O Cristão só existe em Cristo Jesus. Vemos o absurdo de tantos católicos que dizem: “eu sou cristão, mas…” Ou de outras pessoas: “Ah, eu creio, mas…” Esse “mas”, indica que não crê em coisa nenhuma.

Em Romanos 6,5, São Paulo diz: “Se fomos feitos o mesmo ser com ele”. Quer dizer, o Cristo e o cristão formam um só e mesmo “Cristo”. Como aconteceu no seio da Virgem Maria, só que ali se forma uma pessoa só, quando a Pessoa Divina do Verbo assume a natureza humana. No cristão se formam duas pessoas, quer dizer, a Pessoa Eterna do Verbo de Deus, Jesus e nós, somos duas pessoas. É uma união quase igual, quase. O Cristo e o cristão formam um só e mesmo Cristo, mas em duas pessoas.

Embora ela não suprima a distinção pessoal, essa identificação com o Cristo é, portanto, muito real por ser uma comunidade de ser. Por consequência é uma comunidade de vida, porque estando o cristão no Cristo vive da vida do Cristo. Todo cristão pode dizer e repetir as palavras de Gálatas 2,20: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim”. Se bem que haja dois viventes, o Cristo e o cristão, não há senão uma só vida, que é a própria vida do Cristo Jesus. Pela fé e o Batismo, o Cristo entra no cristão para se tornar a alma de sua alma, a vida de sua vida, uma identidade de ser e de vida. Jesus diz, em João 6,56-57: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (v. 56). A palavra permanecer é composta de um sufixo per e o verbo manere. Manere significa morar, então, permanere seria “supermorar”, quer dizer, é um morar intimíssimo.

No evangelho, Jesus utiliza a expressão “da mesma maneira”, para significar bem o que ele quer dizer. Assim, estabelece um paralelo entre ele e nós, o mesmo paralelo entre ele e o Pai. Então, ele diz que “da mesma maneira que meu Pai que me enviou vive, e eu pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim, como eu vivo pelo Pai” (v. 57). Quer união mais íntima, quer dependência mais total?

Em João 14,18-20, Jesus diz: “Não vos deixarei órfãos. Voltarei a vós. Ainda um pouco de tempo e o mundo já não me verá. Vós, porém, me tornareis a ver, porque eu vivo e vós vivereis.” – da mesma vida subentende-se – “Naquele dia, conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim e eu em vós”. Essa união com ele por identificação, no ser e na vida, Jesus a comparou a mesma união que existe entre o Pai e ele: “(…) assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós” (Jo 17,21).

Então, nossa união com Jesus não é como na ficção que faz com que o adotado seja considerado como se fosse filho do adotante, não. Ela é uma realidade efetiva, ela produz uma transformação, comunica-nos uma vida nova, graças a um novo nascimento. A adoção jurídica não faz nada disso. Não comunica, não faz uma transformação do ser do adotado, não comunica a ele uma vida nova e não faz com que ele nasça de novo. Em São João 1,12-13: “Mas a todos aqueles que o receberam, aos que creem em no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus”. É um novo nascimento que nos transforma.

Posted in Dom Cipriano Chagas.

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