Em Busca de Deus

Cenas do cotidiano
Outro dia estava com um cliente de preservação de livros, um médico renomado na sua área de atuação e, como sempre, nos perdemos nas conversas sobre assuntos variados. Não me lembro mais porque saiu o assunto de redes sociais, a alta exposição pessoal e as respectivas consequências. Em meio a conversa ele me olhou bem sério e perguntou se eu sabia o que faltava nesse mundo. A reposta dele me surpreendeu. “Espiritualidade”. Não sei dizer qual a religião dele porque nunca perguntei. Para mim, esse não é o ponto em questão, e sim pelo fato de, em geral, a medicina ser um vasto campo para o ateísmo, não esperava essa resposta dele. Ele dissertou sobre o vazio da alma humana e a falta de valores que levam os homens a não mais se reconhecerem como tal.

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Estou num sábado tomando café com uma amiga, advogada, jogando conversa fora, quando a conversa vai parar exatamente onde? Valores invertidos, distanciamento das pessoas e a vida robotizada – casa, trabalho, casa.

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Na homilia de domingo, o padre fala sobre as atrocidades da humanidade que estão acontecendo hoje. As causas? A falta de espiritualidade no mundo e a transformação do homem em máquina. Ele contou um caso ótimo: encontrando com uma amiga que há algum tempo não via, perguntou como estava e a resposta foi – “Eu estou funcionando bem”.

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Estou lendo uma resenha da nova tradução do livro “Ética” de Spinoza e fico sabendo que ele foi como que excomungado pela comunidade judaica por seu ateísmo quando, na verdade, ele afirma que Deus é tudo. Explicar Deus é como explicar o ar que respiramos – não existimos sem respirar. Viveu uma vida solitária, renegado em sua comunidade, e, no entanto, é hoje um dos grandes nomes da filosofia, tendo deixado ensinamentos que ainda rendem frutos para meditação.

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Lançamento do filme “Comer, Rezar e Amar”, com a atriz Julia Roberts, baseado no best-seller do mesmo nome, da autora Elizabeth Gilbert, que relata a experiência da escritora sobre o seu ano sabático em busca de si mesma.

Sólidos ou líquidos?
Essas cenas ilustram o momento de transição que vivemos. Não somos mais como o homem moderno, ou sólido, do século passado, que sabia para onde estava indo e que acreditava que o mundo místico não era real, e sim uma crendice dos ignorantes. O real eram as máquinas e o conhecimento técnico que transformariam o homem no ser supremo. Hoje, somos o homem pós-moderno, ou líquido, que não tem ideia para onde está indo – tem liberdade para ir para qualquer lugar, a qualquer hora, de qualquer forma. Nós nos auto-transformamos em máquinas consumidoras e geradoras de conteúdo, cuidadas/mantidas para não parar de funcionar momento algum, mas começamos a ficar em dúvida se realmente o mundo místico não influencia o mundo concreto. Entre um e outro, há uma ponte, que a cada passo nos oferece duas opções:

  • Ir para o caminho da liquidez total, e ao meu ver ir de encontro ao abismo, ou
  • Descobrir como viver num mundo líquido cercado por Deus.

Tudo bem que olhando assim, parece que estamos perdidos indo para o fim do mundo. Pode ser um complexo de Polyanna ou excesso de otimismo, mas me nego a comprar essa ideia. Deus afirmou a Abraão, em Gênesis 32, que mesmo que só 10 homens fossem tementes a Ele, a cidade seria salva. Para qualquer lugar que olhamos, podemos ver tentativas da busca de Deus, em todos os campos – religiosos, médicos, psíquicos, científicos e tecnológicos.

Talvez nós, como os judeus que condenaram Spinoza ou antes mesmo, que condenaram Jesus à cruz, não estamos sabendo reconhecer a presença de Deus e condenando aqueles que o buscam, antes mesmo que o próprio o faça.

Estamos muito presos aos nossos preconceitos e jeito de viver. Qualquer coisa que saia da nossa área de conforto, é visto como heresia, impedindo-nos, quem sabe, de encontrar Deus por um novo caminho.

A simples falta da espiritualidade estar sendo sentida é um avanço. É um sinal de que Deus está mais presente do que antes. Só sentimos falta daquilo que gostamos, mesmo quando não sabemos que gostamos. Quem não já passou pela situação de só dar valor a alguém quando perde esse alguém? Isso é algo que podemos mudar hoje, com pequenas ações individuais.

Na homilia de que falei acima, o padre citou um santo, acho que foi São Francisco, mas não tenho certeza, que toda manhã se fazia cinco perguntas que tentaria responder ao longo do dia:

  • De onde vim?
  • Para onde vou?
  • Quem sou?
  • Qual a minha missão?
  • O que posso fazer?

Nota: [1]Conceito Modernidade Líquida cunhado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman para se referir a insegurança e flexibilidade nas relações na sociedade contemporânea. Ver Modernidade Líquida, Editora Zahaar, 2001.

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